Evolução da Vida e da Forma

Por Annie Besant

EVOLUÇÃO DA VIDA E DA FORMA

PRIMEIRA CONFERÊNCIA

CIÊNCIA ANTIGA E MODERNA.

Meus irmãos: O tema sobre o qual me dirigirei a vocês nesta manhã, e nas três manhãs seguintes, é de considerável complexidade e dificuldade.

Não peço desculpas pela dificuldade do meu tema.

Quando nos reunimos aqui em nossa Reunião de Aniversário, reunimo-nos como estudantes e não simplesmente como homens e mulheres superficiais do mundo.

Procuramos nos preparar, mediante o estudo, para o intercâmbio de ideias que nestas reuniões se realiza, e embora o tema seja difícil, embora não seja possível torná-lo claro e inteligível sem o uso de certos termos técnicos, ainda assim, para o estudante os termos técnicos — sendo precisos — são realmente os mais fáceis de entender, e como, ao menos em sua grande maioria, somos estudantes, eu que falo, e vocês que ouvem, podemos nos contentar em tratar o tema de uma maneira algo formal e técnica.

Aproximadamente, meu esquema é este.

Quero apresentar-lhes uma concepção inteligível da evolução, tomando-a em seus dois lados, o da vida em evolução e o das (6) formas em desenvolvimento.

Começo expondo diante de vocês um esboço dos métodos da "Ciência Antiga e Moderna", a direção na qual cada uma tem trabalhado e está trabalhando, a união final que, esperamos, pode ter lugar entre elas.

Porque, o que poderia pressagiar mais plenamente o bem de todo o mundo, o que poderia prometer mais felizmente para a relação entre as diferentes raças da humanidade, do que reunir no plano da mente a ciência da antiguidade e dos dias modernos, a ciência do Oriente e do Ocidente, e, casando-os entre si, aproximar as nações que agora estão divididas, e tornar objetiva essa fraternidade da humanidade com a qual sonhamos?

Tratando primeiro com a ciência antiga e moderna desta maneira ampla e geral, e tomando isso como meu tema para esta manhã, passarei amanhã a falar sobre as "Funções dos Deuses", entendendo por essa frase as atividades desse lado invisível da natureza do qual depende tudo o que é visível.

Se usarmos aqui o nome "Devas" para representar aquelas inteligências espirituais desenvolvidas, ou se com o filho do Islã, com o hebreu ou o cristão, falarmos dos "Anjos" e "Arcanjos", o nome não importa nada; a concepção é comum a todas as crenças do homem.

Estudaremos suas funções no universo e trataremos de compreender como atuam como ministros da Divina Vontade.

Em seguida, passaremos a tratar dessa "Evolução da Vida" que subjaz à evolução das formas.

Finalmente, trataremos (7) da "Evolução das Formas", e veremos como, nessa evolução, está a promessa da perfeição final, como tudo funciona até um final perfeito, como o melhor que podemos sonhar é menos que a realização de Deus.

Esse é o esquema de nosso trabalho.

Comecemos imediatamente a primeira seção do tema Ciência antiga e moderna.

Ora, nos tempos antigos, naqueles tempos para os quais, nesta terra, nosso pensamento se volta com mais carinho, com reverência e orgulho, daqueles tempos, aqui, como em qualquer outra terra antiga, a Religião e a Ciência estavam unidas, e não havia discórdia entre a inteligência e o espírito.

Não importa por onde vagueis entre as antigas nações do mundo: podeis viajar por toda a Caldeia; podeis estudar os restos do antigo Egito; podeis passar pela Pérsia e buscar entre seus monumentos; podeis cruzar o Atlântico até a América e desenterrar as cidades que se perderam antes que os astecas tivessem feito o poderoso Estado que caiu sob os golpes dos espanhóis; podeis ir à China e, nos vastos recantos dessa terra quase desconhecida, podeis buscar o que ali ficou desde a antiguidade; ou, sem sair dos limites de vossa própria terra, podeis considerar a literatura que é nosso orgulho, os poderosos livros escritos pelos Ṛishis do passado; e em toda parte a antiguidade fala com uma só língua.

A religião revela o espírito, a verdade espiritual que é una.

A inteligência estuda essa verdade em suas múltiplas manifestações e sua obra; a ciência, que estuda os fenômenos que são imagens de aspectos do Divino, é a serva, é a irmã da religião, e entre elas a discórdia é antinatural e fatal para o progresso.

Essa é a visão antiga; mas quando chegamos ao nosso próprio século, um novo fenômeno se apresenta diante de nosso olhar: a religião, por um lado, desconfia da ciência em seu progresso, e a ciência, por outro lado, é propensa a desprezar (9) orgulhosamente as afirmações religiosas.

Como surgiu o divórcio? Por que essa discórdia entre dois dos grandes auxiliares da evolução humana? A razão não está longe de ser buscada.

No mundo ocidental, a ciência dos tempos antigos, a ciência da antiguidade, desapareceu na grande inundação das invasões bárbaras, sob o turbilhão provocado pelas ruínas do Império Romano, e mais tarde, sob os escombros desse mesmo Império com seu novo centro em Constantinopla.

As invasões dos bárbaros, tanto do leste quanto do norte, arrasando o continente europeu, trouxeram a ignorância após a conquista bárbara.

O resultado foi que a noite caiu sobre o conhecimento e uma espessa escuridão envolveu as terras que iriam ser o viveiro de uma nova civilização.

Quando o Sol da ciência começou a nascer de novo sobre o mundo ocidental, apresentou-se numa forma que era estranha, mais ainda, que era mais que estranha, que era hostil à religião dominante da época.

Proveio dos filhos do Islã.

Veio daqueles que reconheceram Maomé como seu Profeta.

Das escolas muçulmanas da Arábia chegaram à Europa os primeiros mestres da ciência moderna.

Certo, eram realmente, por sua ascendência intelectual, descendentes do pensamento da Grécia.

Inspiraram-se na escola de Platão através dos neoplatônicos; reproduziram as ideias de Porfírio e Ptolomeu, e de outros pensadores gregos e egípcios, neoplatônicos e até gnósticos.

Mas o cobriram com o manto do Islã, o apresentaram em forma de pensamento árabe.

O resultado disso foi que, ao chegar à Espanha após a conquista dos mouros, assim como chegou com aqueles que expulsaram do sul da Península o domínio da monarquia espanhola cristã, o primeiro aspecto da ciência para os cristãos era um aspecto de hostilidade.

Chegou como um inimigo invasor e não como um iluminador para todos.

Daí surgiu o conflito; alguns que estavam dentro (10) dos limites da poderosa Igreja de Roma, tocados por um anseio de novos saberes, estenderam suas mãos para tomar os dons que a ciência lhes trazia.

Esses homens foram olhados com suspeita, mais ainda, com mais que suspeita, com ódio que explodiu numa amarga perseguição.

Quem pode ler a história de Roger Bacon, o monge maravilhoso; quem pode imaginar Copérnico em seu leito de morte enquanto sua obra imortal lhe é trazida antes que seus olhos se fechem, tendo ele recuado diante de uma publicação anterior, por temor de que a zombaria fosse sua porção? Quem pode parar no Campo de Flores em Roma, e ver ali a estátua erguida onde foi queimado vivo, aquele que, morrendo em um século, vive para todos os séculos vindouros — Giordano Bruno; quem pode ouvir Galileu, enquanto com lábios vacilantes nega a verdade que sabe e pronuncia a falsidade que não sabe; quem pode seguir esses passos de mártir, levados por amargas recordações de sangue e fogo, sem compreender a razão da hostilidade da ciência para com a religião, sem confessar com vergonha e dor que essa hostilidade foi causada e justificada pelas crueldades infligidas pela religião sobre a ciência, quando a ciência era jovem e fraca? Cada um de nós que está ao lado da religião deveria reconhecer que estamos colhendo a amarga colheita de nossos próprios erros passados, e que a lei (11) é justa e nos traz as dificuldades e a oposição que encontramos em nossos dias modernos.

Porque à medida que a ciência se fortalecia, ela se fortalecia com a espada em suas mãos.

Ela lutou por cada centímetro do chão que pisava, e somente na medida em que podia proteger a si mesma estava a salvo das chamas ou da prisão.

Portanto, ela buscou tudo na natureza que pudesse servir como arma contra o inimigo que a atacava.

Daí que acolhesse com entusiasmo tudo o que parecesse demonstrar que o materialismo era a verdadeira filosofia de vida.

Se recuarmos vinte e cinco anos, à época em que eu e alguns de vocês éramos jovens, encontraríamos que sobre a ciência ocidental pairava a sombra do materialismo, e que cada vez mais forte crescia a tendência científica a "ver na matéria a promessa e a potência de toda forma de vida". Você se lembra dessas famosas palavras do professor Tyndall, não materialista em seu pensamento e um homem religioso em suas aspirações, mas quase impelido pelo desespero a reivindicar um campo justo para a ciência e a rejeitar as pretensões da religião, porque entre elas estava incluído o direito de amordaçar, a recusa de permitir que o pensador pronuncie honestamente o pensamento.

Mas as coisas estão mudando cada vez mais; à medida que a religião se tornou mais liberal e mais racional, a ciência se torna menos (12) materialista e menos agressiva; e veremos em breve que o que há de mais moderno na ciência moderna, não é exatamente a ciência que se obtém nos livros-texto, porque está praticamente desatualizada na avalanche de pensamento que vem do Ocidente, mas sim a ciência dos líderes do pensamento, a ciência dos primeiros homens no campo científico — aproxima-se cada vez mais do domínio em que os cientistas reconhecerão a religião como auxílio e não como inimiga.

De fato, falando da mesma cátedra da qual Tyndall havia pronunciado sua famosa frase de que "na matéria viu a promessa e a potência de cada forma de vida", seu sucessor, Sir William Crookes, membro de nossa própria Sociedade Teosófica, declarou: invertendo aquelas palavras de seu predecessor, que "Na vida vejo a promessa e a potência de todas as formas da matéria". Tal é a grande mudança.

Examinemos agora em detalhe.

A diferença fundamental entre a ciência antiga e a moderna é que a ciência antiga estuda o mundo do ponto de vista da vida que está evoluindo, enquanto a ciência moderna estuda o mundo observando as formas através das quais essa vida se manifesta.

A primeira estuda a vida e vê nas formas as expressões da vida.

A segunda estuda as formas e tenta, mediante o processo de indução, descobrir se existe um princípio subjacente pelo qual possa ser explicada a multiplicidade de formas.

(13) A primeira trabalha de cima para baixo, a segunda de baixo para cima, e nesse mesmo fato está a promessa de um ponto de encontro onde as duas se unirão de mãos dadas.

Mas essa diferença fundamental traz consigo resultados muito importantes.

Se vamos estudar o mundo do ponto de vista das formas, nosso estudo será quase interminável em sua multiplicidade.

Pense em uma árvore; o tronco único através do qual a vida se derrama, inúmeras folhas nas quais essa vida finalmente se expressa; é uma imagem da árvore da vida, esse grande Ashvattha, a árvore da qual ouvimos falar, cujas raízes estão nos céus e cujos ramos se estendem sobre a terra.

Se vamos estudá-lo onde está seu tronco, o tronco da vida, temos a unidade de propósito e podemos rastrear por que temos multiplicidade de formas; mas se havemos de começar pelas partes onde crescem as folhas, devemos examinar folha por folha, registrar cada diferença de contorno, observar e estudar cuidadosamente cada pequena variedade de forma.

A ciência estuda as folhas; nos tempos modernos, a ciência antiga estudava a vida.

Aí está a diferença fundamental.

Também está a razão da diferença de métodos pelos quais deve ser realizado o estudo.

Qual é o método da ciência moderna? O uso da observação clara, do juízo agudo, do poder de reunir coisas semelhantes e (14) ver as diferenças que dividem as classes semelhantes das classes diferentes.

Mas para que isso possa ser feito, uma vez que a natureza é infinita tanto no vasto quanto no diminuto, o homem exige, para complementar seus limitados sentidos, instrumentos e aparelhos do caráter mais requintado e delicado; de modo que até se disse que o progresso da ciência é o progresso da natureza requintada do aparelho que a ciência usa, e os homens de ciência idealizarão um equilíbrio mais delicado, uma forma de ajuste mais delicada, instrumento após instrumento, até que a perfeição pareça muito próxima de ser alcançada; o homem de ciência moderno, para realizar suas investigações, exige uma grande variedade de aparelhos que deve utilizar para seu trabalho, pois de acordo com a delicadeza de seu aparelho é a extensão de sua observação das formas às quais dirige sua atenção.

Mas o homem de ciência do tipo antigo não pede instrumentos; não está estudando a evolução das formas; tem que estudar a vida, não a forma; e para tal estudo deve evoluir ele mesmo, a vida que está dentro dele, pois somente a vida pode medir a vida, somente a vida pode responder às vibrações dos vivos; seu trabalho é desdobrar-se a si mesmo, tirar das profundezas de sua própria natureza os poderes divinos que jazem ocultos nela, não nos sentidos, mas no Si mesmo.

Suas investigações só podem ser realizadas por meio (15) desses poderes, e somente à medida que desenvolve o divino dentro dele poderá compreender e medir o divino fora dele. Ora, isso só é possível porque, em essência, as naturezas de Deus e do homem são idênticas.

Isto soa como uma declaração audaciosa, mas é a verdade fundamental de todas as religiões.

Preciso citar-lhes o famoso dito: "Tu és Isso"? Tomarei uma frase equivalente da Escritura hebraica, aceita por todo o mundo cristão: "Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou"? O ensinamento é idêntico, como o são todas as grandes verdades idênticas nas diversas religiões, mas o que significa? Deus se manifesta em Seu universo.

Queres entender Sua obra? Contempla-a, não pela visão do intelecto, que possas ver essa Forma, invisível mesmo para a inteligência.

Somente quando o Ser que é Deus se desdobra dentro de ti, o Ser que é o Deus fora de ti se te manifestará em toda a glória de sua vida; esse é o antigo ponto de partida. Assim, o que o homem de outrora tinha de fazer, se verdadeiramente fosse ser um homem de ciência, era tornar-se divino; tinha de ser um santo antes de poder ser um sábio.

Nenhum homem poderia ser sábio até que fosse puro, pois como (16) os olhos impuros deveriam contemplar o Puro? A marca distintiva do homem de ciência da antiguidade: ele se desenvolve por dentro antes de poder ser aprendido por fora.

Mas ao homem de ciência moderno não se exige essa condição.

De fato, ele deve levar uma vida que seja restrita, ordenada e bastante limpa; se cedesse ao tumulto dos sentidos, sua inteligência se nublaria.

Ele deve ter um agudo poder de observação, uma força de julgamento equilibrada, uma grande paciência, uma laboriosidade infatigável, uma percepção clara das diferenças e semelhanças.

Tudo isso se lhe exige, se ele há de ser grande, e esses estão entre os poderes mais nobres da inteligência.

Mas tudo o que ele pede à religião é que o deixe em paz.

Antigamente, a religião abriu a porta à ciência; a ciência atual não pede nada à religião, salvo que se mantenha à margem.

Essa é a dificuldade em nosso caminho.

Temos de demonstrar que a vida não pode ser entendida até que o estudante viva o que busca.

Que mesmo a compreensão das formas é muito imperfeita até que a vida expressa através delas seja reconhecida e parcialmente compreendida.

Essa diferença fundamental de método, então, cobrirá todo o campo e nos permitirá compreender a diferença dos resultados.

Agora tratemos de compreender mais claramente por que se ensinou ao antigo homem de ciência que o primeiro passo para o verdadeiro conhecimento, ou sabedoria, era o desenvolvimento do Eu. (17) O que é a vida ou a consciência, pois os dois termos são sinônimos? É o poder de responder às vibrações; o poder de responder, isso é consciência.

A evolução é o desdobramento de um poder continuamente crescente para responder.

Todo o universo está cheio das vibrações de Íshvara, de Deus.

Ele sustenta e move o todo.

A consciência é o poder em nós para responder a essas vibrações.

Todos os poderes estão escondidos dentro de nós, assim como o carvalho está escondido na bolota.

Mas é no processo de evolução que o broto cresce lentamente da semente.

Na Eternidade, no Agora, tudo é existente, perfeito; somente no Tempo há sucessão, o desdobramento de uma coisa após outra.

No Ponto imutável tudo está presente: o Espaço não é mais que o campo de diversas sequências.

Portanto, o Tempo e o Espaço são as ilusões básicas e, no entanto, são as condições fundamentais do pensamento.

Tenha presente, por favor, essa definição de consciência, pois ela regerá o restante de nosso estudo.

O Self no homem, sendo à imagem de Deus, é triplo, assim como o Self, o Divino, é triplo.

Não preciso me deter para discutir isso.

Você sabe disso por essa grande literatura que se encontra no fundamento de toda a filosofia hindu.

Quer você fale em termos abstratos e diga com o Upanishad que Brahman é triplo, quer fale d'Ele como Sat-chit-ânanda, (18) ou que, em vez de usar termos filosóficos e abstratos, diga que Ele se manifesta como Íshvara no Trimûrti como Mahâdeva, Vishnu e Brahmâ, não importa.

Você pode tomar a forma concreta ou a abstrata; a ideia fundamental é a mesma: que o Ser Divino em manifestação é triplo, e portanto em todas as grandes religiões se fala de Deus como uma Trindade.

Se não fosse assim, a relação entre Deus e o homem permaneceria para sempre ininteligível, já que o homem mostra uma triplicidade em sua evolução.

O reflexo humano desse triplo Eu Divino é o triplo Eu no homem.

Um a um, os aspectos Divinos são revelados à medida que a manifestação avança.

O mais baixo, se posso ousar usar tal termo, é o aspecto que primeiro se põe em atividade para a construção do universo.

Assim também no homem a inteligência desperta e se torna ativa, o aspecto mais baixo do Eu humano.

Esse é o reflexo de Brahmâ, da Mente Universal, a energia criadora da qual tudo surge; e podeis encontrar em vós mesmos, à medida que evoluís, essa faculdade criativa da imaginação que, trabalhando atualmente na matéria sutil, quando o homem for perfeito, trabalhará também na matéria mais grosseira; porque o poder imaginativo no homem é o reflexo do poder que em Deus criou o universo.

Brahmâ meditou e surgiram todas as formas; e no poder criativo da mente reside toda possibilidade de forma.

Assim, no homem se desenvolve mais tarde o aspecto seguinte, o de A’nanda, onde se reconhece a unidade em lugar da diversidade.

Chit, no homem, é a inteligência que conhece, que separa e divide e analisa, e tem a ver com a multiplicidade de formas e com suas inter-relações; Ananda é a sabedoria que se dá conta da unidade de todas as coisas e que alcança a união, encontrando assim a alegria que se encontra no coração mesmo da vida; último de todos na evolução humana, desenvolve-se o terceiro e mais alto aspecto da Divindade, a Auto-Existência, a Unidade que jaz além da união, e isto (19) pode desenvolver-se no homem somente porque o homem é um com o Eterno em sua natureza.

Por essa evolução, nas eras vindouras, através dos incontáveis kalpas que jazem diante, surge Íshvara após Íshvara, cada um como o fruto de um universo, para realizar ainda mais poderosamente a vontade do "Uno sem segundo", e para manifestar algo dessa perfeição à totalidade da natureza então manifestada.

Tal é, a grandes traços, o curso da evolução humana para a divindade, e isso é levado a cabo por raças que se sucedem umas às outras; à medida que chegamos às raças raízes superiores do homem, às que chamamos a Quinta, na qual estamos, a Sexta, que nos sucederá, e a Sétima que termina este ciclo de evolução humana, aprendemos que a característica de cada uma dessas três Raças Raízes (20) é que cada uma desenvolve gradualmente aquele aspecto de Deus que lhe pertence na devida sequência de evolução.

A Quinta está desenvolvendo o aspecto de Chit, a Inteligência; a mente está evoluindo, e todo o progresso da ciência moderna, tão marcado em nossos dias, não é mais do que parte do fruto dessa evolução, desse crescimento da inteligência que observa o mundo exterior como não em si mesmo, como o Não-Eu, e busca estudá-lo e compreendê-lo.

Os atributos característicos pertencentes à evolução das duas raças seguintes hão de ser alcançados mesmo agora por métodos especiais, por indivíduos que estejam dispostos a se esforçar para fazer os sacrifícios requeridos.

O que conhecemos como Yoga é o método pelo qual se acelera a evolução no indivíduo, e todos os poderes do Si-mesmo, até o limiar da divindade, podem manifestar-se no homem do presente.

É por isso que o treinamento em Yoga era necessário para o antigo cientista; ele deve desenvolver em si mesmo os três aspectos de Deus, se quiser compreendê-los como se manifestam no universo que o rodeia.

Agora, em nossa própria etapa de evolução, é especialmente a vida de Brahmâ — ou o aspecto Brahmâ de Deus — com a qual a mente humana está se pondo em contato, porque a mente no homem é o reflexo da mente universal no Cosmos.

Essa vida é a vida que é a força no átomo, que vivifica cada átomo, mais ainda, (21) que dá existência ao átomo, como veremos, e permanece durante todo o crescimento do universo como a vida fundamental que mantém esses átomos como partículas ativas construindo inúmeras formas.

Somente quando a vida de Brahmâ, o aspecto de Brahmâ, se desenvolver no Ser humano, o homem poderá estudar o funcionamento dessa vida nas formas atômicas que preenche; e é muito significativo que alguns dos maiores problemas da ciência moderna agora giram em torno da natureza do átomo, e que os cientistas se perguntam: o que é? É matéria ou força? É uma partícula ou um vórtice? Essa pergunta nunca será respondida com certeza até que o homem tenha desenvolvido em si mesmo o poder de responder à vida que vibra no átomo, até que, desenvolvendo a inteligência dentro de si mesmo até o ponto mais completo, seja capaz de responder por essa inteligência às vibrações da vida atômica fora dele. Definimos a consciência como o poder de responder às vibrações, e se o homem há de medir a vida, se há de conhecer as causas subjacentes dos fenômenos, deve desenvolver em si mesmo o poder de responder a essa vida exterior a ele; e na perfeição da inteligência humana, o reflexo do aspecto Brahmâ de Deus, reside a única possibilidade de solução para esse problema tão debatido na ciência.

Disse que era significativo, porque (22) esse problema pertence à Quinta raça, e o mundo ocidental está atualmente povoado em grande parte pela quinta sub-raça da grande Quinta.

Assim leva ao ponto mais alto a mente concreta do homem, essa maravilhosa atividade do intelecto, esse estudo rápido e, no entanto, paciente, produzindo as realizações que a ciência moderna está alcançando.

Tudo isso é um testemunho da verdade do antigo ensinamento de que surge sub-raça após sub-raça, cada uma com seu próprio trabalho a fazer, e devemos considerar o trabalho de cada subdivisão da humanidade como bom em si mesmo: cada uma não deve ser considerada como uma expressão isolada e hostil, mas como parte da manifestação Divina, expressando a porção que está destinada a expressar.

Olhando assim, então, para o problema da vida que existe no átomo, descobrimos que para compreendê-lo, devemos desenvolver o intelecto puro no homem; mas para compreender a vida que se reveste de formas orgânicas, para desvendar os segredos que nos explicarão por que um é formado assim e outro assado, o próximo grande aspecto do Ser deve se desenvolver dentro de nós: o da vida onipresente de Vishnu, que sustenta o mundo como o poderoso sustentador de tudo, a base, o fundamento de tudo.

Somente ali está a energia unificadora e ali a raiz da qual surgiram todas as divisões; (23) somente quando nos dermos conta deste aspecto da energia unificadora no Si mesmo, os segredos das formas organizadas na natureza se revelarão diante de nossos olhos.

Este trabalho é o da Sexta Raça Raiz, e aqueles que desejarem anteceder sua evolução devem desenvolver em si mesmos poderes da Sexta Raça mediante o Yoga.

Resta um problema mais poderoso, o mais sutil e o mais difícil de todos, o da vida do espírito humano, do homem evoluindo em direção a Deus.

Os mistérios dessa vida só podem ser compreendidos quando o Ser humano, que surge do Pai de tudo, do Poderoso que às vezes é o Destruidor, às vezes o Criador, mas sempre o Regenerador, o nome que os inclui a ambos, Mahâdeva, o Deus poderoso que é Sat, Existência—tiver desenvolvido o aspecto de Sat, de pura Existência, tornando-se assim a tríplice Unidade, um Logos, um Íshvara.

Esse é o trabalho da Sétima Raça Raiz, e quando isso for alcançado, somente então ficarão abertos diante de nosso olhar os problemas finais do espírito humano.

O homem científico da antiguidade, pois, começava por essa auto atenção, desdobrando em si mesmo, uma por uma, todas essas potencialidades sob um Gurú adequado, passando de passo em passo até chegar ao mais alto, e adorando sempre ao Mahâguru, o Gurú do mundo universal.

Tendo desdobrado seus poderes mais elevados, começou a estudar a vida, a vida em sua efusão, não a vida em suas múltiplas e veladas manifestações nos mundos inferiores.

Daí o elevado ponto no qual começou, nada menos que o surgimento de Íshvara envolto em Mâyâ.

O que é Íshvara? O que é Mâyâ? Aí está o primeiro grande problema.

Dirijamo-nos a ele com reverência.

Os filósofos da Índia têm (24) respondido a essas perguntas de diferentes maneiras, cada uma das quais contém parte da verdade eterna.

Íshvara é esse poderoso centro de consciência que existe sem mudanças no seio da Existência Única.

Há inumeráveis Centros de Consciência desse tipo, dos quais você pode recordar que seu próprio Svâmi Subba Rao escreveu como existindo no seio da Existência Única.

Íshvara em manifestação é como uma lâmpada, uma luz encerrada em uma tela.

Íshvara, envolto em Mâyâ, produz um universo e está encerrado, por assim dizer, no universo do qual Ele é a Luz.

Rompendo a sombra, a luz brilha em todas as direções.

Dissolvendo o universo, Ele ainda permanece.

O centro permanece, mas a circunferência que o circunscrevia desaparece.

Assim é esse poderoso centro quando o universo se desvanece; Somente Ele permanece, mantendo Seu centro inquebrantável no próprio ato de fundir-se, expandir-se no Infinito, o Absoluto, a Superconsciência, o Uno.

Pensemos Nele como um centro eterno de autoconsciência, (25) capaz de fundir-se na superconsciência e limitar-se novamente à autoconsciência.

O que é então Mâyâ? Mâyâ se prepara em todos os casos pela fusão em Íshvara de todo o universo que chegou ao seu fim.

À medida que um loka se enrola e se funde com o que está acima, todas as formas no loka assim fundidas desaparecem, mas a consciência que animava essas formas não se desvanece; fica uma modificação da consciência, uma modificação que se expressa por um poder vibratório, não uma vibração, mas um poder para vibrar de uma maneira particular; e embora a forma se desvaneça quando o loka se funde com o que está acima dele, porque a matéria desaparece ao se desintegrar em matéria mais fina, na consciência permanece o poder de vibrar da maneira como havia vibrado na matéria mais grosseira, e o poder persiste embora as formas causadas por tais vibrações desapareçam, por falta de material suficientemente grosseiro para responder a tais vibrações.

À medida que uma região passa para a seguinte, esse processo se repete uma e outra vez, e loka após loka se desvanece.

As formas se foram, as vibrações se foram, apenas as modificações na consciência capazes de dar lugar a vibrações semelhantes permanecem até que finalmente, quando Íshvara —cuja consciência era a única consciência no universo, cuja vida era a única vida, que sustentava todas as formas (26), que tornou possível cada existência separada— reúne Seu universo em Si mesmo antes de fundir-se no Uno, tudo o que conhecemos como forma se desvaneceu, nada resta exceto o centro da consciência.

Permanece em Íshvara o poder de vibrar de formas particulares, resultantes da evolução de Seu universo, em infinita multiplicidade de vibrações; quando Ele se submerge na Existência Única, tudo se desvaneceu como forma, mas os poderes permanecem nessas modificações sutis, preservadas nesse centro imutável no poderio da Vida Única.

É isto apenas um sonho? Houve um grande mestre, Vâsiṣhtha.

Ensinou a Râmâ, como recordarás, e no registro de seus ensinamentos há pistas sobre alguns dos mistérios da vida.

Se levarem em conta o que lhes disse agora, se tive sucesso com as palavras torpes que são tudo o que a língua humana pode pronunciar sobre esses grandes problemas, em esclarecer todos os seus pensamentos, então escutem esse mesmo pensamento expresso por Sûryadeva, quando falava do mesmo: o final e o novo começo de um universo.

Só há que acrescentar ao já dito, que quando Íshvara surge para que se forme um novo universo, lança Sua vida nessas modificações que haviam (27) aparentemente desaparecido, e a Mâyâ na qual Ele surge, envolto e circunscrito, é Sua própria memória revivificada, que nunca pode separar-se de Si Mesmo; Ele atrai Sua consciência, sob o impulso do Grande Sopro, limitando-a à autoconsciência, e voltando Sua atenção aos conteúdos dessa autoconsciência, seus poderes começam a ativar-se, e isso é Mâyâ. Assim está escrito: "Depois, Tu, ó Senhor, com a intenção de manter o reino da noite, fixado dentro do Ser, tendo atraído essa ordem de coisas, ou universo... Hoje, Tu despertaste e estás muito felizmente desejoso de lançar de novo manifestando o universo em poderosas gradações de hierarquias de seres". Yoga Vâsiṣhtha, lxxxvii, 7, 8. Essas noites e dias são as "Noites e Dias de Brahmâ", a inalação e exalação da Existência Única, e Mâyâ é essa "ordem de coisas" incorporada que permanece fixa durante a Noite, e começa quando Íshvara desperta à chegada do Dia.

Isso é Mâyâ e se retomares as definições dadas nas diferentes escolas, encontrarás que esta inclui e ilumina cada uma delas, que te mostra o que se entende por ilusão, e te explica o que implica sonhar.

O gozoso lançamento à manifestação de todos os poderes que são recordados por Íshvara (28) no momento em que Sua atenção se dirige ao Seu próprio Ser, esse "desejo" impulsionado pela memória que surge no seio do Eterno, é a raiz do universo vindouro.

Agora bem, esse pensamento lhes resultará a chave de muitos ensinamentos antigos.

Tendes, na Mente Universal cheia de ideias que ainda não se concretizam em fenômenos, o mundo das ideias de Platão, o mundo invisível da Cabala hebraica; em cada grande ensinamento encontras o mesmo pensamento expresso.

Se, em vez de estarmos acorrentados pelas palavras, como na sua maior parte o são, e se, em vez de repetirmos frases que não trazem consigo nenhuma ideia na mente do repetidor, tentássemos ler o pensamento que subjaz às palavras, encontraríamos a filosofia hindu em cada filosofia moderna que é digna desse nome, e veríamos as pegadas da antiga Índia na Grécia e em Roma, na Alemanha e na Inglaterra de hoje.

Qual é a etapa seguinte? O Sopro de Vida emana.

Íshvara, o Centro de tudo, envolto em Mâyâ, envia o Seu sopro; quando esse sopro vibrante incide sobre a envolvente Mâyâ, Mâyâ torna-se Prakriti, ou Matéria, ou melhor, talvez, Mûlaprakriti, a raiz da matéria.

À medida que esse sopro, com a sua tríplice força vibratória, incide sobre essa matéria, lança-a em três modificações ou "atributos": Tamas, inércia, ou melhor, estabilidade; Rajas, atividade, vigor; Sattva, (29) uma palavra difícil de traduzir: inclino-me a traduzi-la como Harmonia; por esta razão, onde quer que haja prazer, Sattva está presente.

Sem harmonia não pode existir prazer algum em parte nenhuma.

Todo prazer se deve à vibração harmoniosa, e essa qualidade de vibrações harmoniosas inter-relacionadas é a qualidade que Sattva confere à matéria.

Estas três qualidades fundamentais da matéria, que correspondem a três modificações fundamentais na consciência de Íshvara — inércia, atividade e harmonia — são as famosas três Gunas, sem as quais Prakriti não pode manifestar-se.

Fundamentais, essenciais e imutáveis, estão presentes em cada partícula do universo manifestado, e de acordo com as suas combinações é a natureza de cada partícula.

Depois vem a divisão sétupla.

Em um momento lhes direi por que falamos dela como sétupla em vez de quíntupla, que é a divisão mais familiar para vocês.

A divisão sétupla, o que é isto? Aqui está a matéria com as suas três Gunas, agora pronta para receber outro impulso do Sopro de Vida; esse sopro surge de Brahmâ, pois Íshvara desdobrou a Sua tríplice natureza nos seus três aspectos, e surge em sete grandes ondas.

Cada uma modifica a matéria, e evolui e anima as que lhe seguem.

As duas primeiras estão absolutamente além do nosso conhecimento, (30) e não pertencem de modo algum às nossas etapas atuais de evolução; portanto, normalmente são deixadas de lado, e nos livros sagrados apenas se fala das cinco que compõem a evolução do nosso universo.

Aqui e ali se mencionam os sete, mas apenas em raras ocasiões.

Pode recordar as sete línguas de fogo, por exemplo, e uma ou duas frases similares.

Mas geralmente quíntuplo é Prâna, a vida evolutiva quíntupla.

Primeiro, em todos os casos, é uma modificação da consciência enviada como um poder por Íshvara.

Dirija-se ao Vishnu Purâna e verá exatamente a etapa que estou lhe indicando em frases mais modernas.

O próprio Íshvara, como Brahmâ, emite um poder, devido a uma modificação de Sua consciência, chamado no Vishnu Purâna de Tanmâtra.

Na tradução para o inglês usa-se a palavra rudimento.

Você se lembra dos rudimentos do som, do tato, da cor, etc.

Todos esses rudimentos são os tanmâtras.

Esses tanmâtras são os poderes devidos às modificações na consciência ou na vida, sem os quais não pode existir nenhuma modificação na matéria.

Primeiro a consciência, depois a forma.

A primeira grande vibração que sai é a vibração que dá origem ao que aqui chamamos de som, sendo todos os nossos termos extraídos das manifestações mais baixas ou físicas; a forma que traz à manifestação é A'kâsha, o poderoso elemento (31) do Éter; não o éter da ciência moderna, é claro, embora esse seja seu representante físico.

Então, nisso, o próximo tanmâtra, o próximo poder devido a uma modificação da consciência; o A'kâsha, com a vibração primária dentro dele, recebe a segunda vibração emitida por Íshvara, e esta, impregnando a matéria ao seu redor, produz a seguinte modificação da matéria, o elemento Vâyu, ou Ar.

Vâyu, impregnado, animado e envolvido em A'kâsha, recebe um novo impulso de Íshvara, o terceiro tanmâtra, ou poder resultante de uma modificação da consciência; este tanmâtra, trabalhando em Vâyu, produz a modificação da matéria chamada elemento Agni, ou Fogo, e esta matéria-fogo está impregnada, animada e envolvida em Vâyu, assim como Vâyu em A'kâsha.

Um processo similar traz à manifestação os elementos Apas e Prithivî.

O "campo magnético" de um átomo é composto de todos os tanmâtras e elementos acima dele. Tente realizar esse processo se puder, embora eu saiba que a concepção é difícil.

O que ocorreu? Uma modificação de vida ou consciência em Íshvara, manifestada como um poder, uma vibração; tudo depende da vibração; a ciência antiga e a moderna falam igualmente sobre isso.

O universo é feito de vibrações, as vibrações que são as modificações da efusão Divina da vida.

Estes se revestem de formas (32) fundamentais de matéria, a partir das quais se desenvolve toda multiplicidade.

Estas modificações na matéria, estes elementos grandes ou primários também se chamam tattvas.

Tanmâtras, então, são os poderes emitidos por modificações da consciência, e estes se traduzem toscamente pela palavra rudimentos; temos a seguir as modificações na matéria, os grandes elementos, os elementos primários ou tattvas.

O primeiro dos tattvas se chama A’kâsha; depois Vâyu, depois Agni, depois Apas, depois Prithivî, os cinco seguindo um após o outro; a nota-chave desta evolução é que a modificação do tattva superior anterior se reproduz dentro do inferior, impregna-o e se expande para fora dele. Se você pegar o Vishnu Purâna, o segundo capítulo, e ler novamente a evolução dos cinco tattvas, encontrará que a palavra sânscrita que se usa provém de uma raiz que significa penetrar tanto quanto encerrar, dando a ideia de permeação assim como de expandir-se ao redor para formar um envoltório.

E deveis compreender que a vida central de cada tattva é o tattva precedente com seu tanmâtra; que, com o novo tanmâtra, compõe a vida; e a forma externa é o novo tattva que por essa ação produtiva chega a existir.

Agora, deixando isso, porque não posso entrar em mais detalhes, permitam-me dizer-lhes uma palavra acerca dos (33) sete e dos cinco, porque isso tem sido uma fonte de grande disputa entre alguns de nossos Pandits hindus e alguns de nossos teósofos.

No universo, tomado como um todo, séptupla é a vida de Íshvara.

Além do tattva que conhecemos como A’kâsha, está esse tattva que se tem chamado Anupâdaka, e além de A’ditattva, o primeiro.

Esses estão muito além do nosso conhecimento; não podemos pensar tão longe.

Para a nossa evolução da vida, os cinco marcam o limite; e somente os cinco, portanto, como regra, são dados nos livros que devem ser estudados para mostrar-lhes como evoluir.

Rapidamente devemos passar adiante, então, a estes tattvas, já que, modificando-se a si mesmos por agregações, e por desintegrações e recombinações destes, tomam inúmeras formas.

A concepção fundamental é que há tantas formas básicas de átomos no universo quantos tattvas.

O tattva da ciência antiga é o átomo da ciência moderna, mas a ciência moderna comete o erro de supor que há apenas um átomo fundamental.

A verdade é que a ciência moderna só busca apoderar-se de Prithivi.

Tattva, o átomo mais baixo ou físico, e ainda não reconheceu sequer a existência dos quatro (ou seis) átomos superiores que se estendem além.

Esses átomos formam as regiões do universo.

Tudo o que é físico (34) é feito do Prithivi Tattva.

Não apenas isso, mas dentro dos limites desta região física se reproduzem as correspondências das seis formas atômicas superiores.

As subdivisões da região física, devido às combinações de Prithivi Tattva, mostram as características das grandes regiões que compõem o universo; de modo que temos aqui no nosso: sólido, líquido, gás, três éteres e átomos, correspondências dos seis tattvas superiores, mas os temos todos em sua forma Prithivi; são as modificações de Prithivi, reproduzindo-se em um plano inferior os grandes elementos primários.

Poderíamos chamá-los de Prithivi A'ditattva, Prithivi Anupâdhakatattva, Prithivi A’kashatattva, Prithivi Vayutattva, Prithivi Agnitattva, Prithivi Apastattva, Prithivi Prithivitattva.

Acima da região de Prithivi vem o grande reino de Apas, com subdivisões similares, todos os Apastattva, e assim novamente outros sete acima do reino superior de Agni, e acima disso o mesmo no reino ainda superior de Vâyu, e acima disso novamente no A’kâsha, e então os dois reinos desconhecidos mais elevados.

Quando você lembrar que todas essas regiões se interpenetram entre si, poderá vislumbrar uma complexidade vertiginosa de pensar, a vasta complexidade do universo no qual a Vida Única está trabalhando.

No entanto, essa complexidade se simplifica trabalhando assim (35) para baixo, e aí está a linha do estudo da ciência antiga.

Trabalhando desde esta vida originalmente simples até a infinita multiplicidade de formas, podemos rastrear o Uno entre os muitos, e ver o Si Mesmo em todas as coisas, e todas as coisas Nele. Ao final de um universo, os tattvas se fundem entre si por desintegração; Prithivi Tattva, tendo-se desintegrado em átomos, esses átomos se rompem por sua vez, e o tanmâtra que os formou, não podendo mais se expressar por falta de material adequado, deixa de ser um poder e permanece representado unicamente por uma modificação na consciência — uma possibilidade permanente.

Assim, Apas Tattva se torna a manifestação mais baixa e, por uma repetição do processo anterior, deixa de existir.

Da mesma maneira, cada um se desvanece sucessivamente.

Por isso, representa-se Mahâdeva dizendo no Shivâgama: "O universo procede dos tattvas; continua através dos tattvas; desvanece-se nos tattvas".

Tal é a grandiosa concepção do cosmos dada pela ciência da antiguidade; uma vida, pulsando em inúmeras vibrações, e estas lançando matéria em formas.

Nisso se baseou o sistema pitagórico de números; sobre isso se fundaram a matemática e a música; sobre isso se construiu (36) a "Grande Ciência", ou Magia, de nações desaparecidas há muito tempo.

Essa ciência só sobrevive em sua pureza na Grande Fraternidade Branca, mas seus vestígios ainda podem ser vistos nas escrituras e nas religiões do mundo.

Tomamos a ciência moderna e passamos a uma atmosfera diferente.

Agora os fenômenos devem ser estudados, as formas devem ocupar nossa atenção.

Mas quando observamos a ciência moderna, descobrimos que ela está começando a transcender o estudo das formas; encontramos os esforços dos maiores homens voltando-se para buscar a unidade em meio à diversidade.

Não pensem que, ao falar da ciência moderna como um estudo das formas, sou indiferente às grandes realizações que ela tem feito, ou que diria uma única palavra para denegrir a capacidade dos principais homens de ciência e o valor inestimável do trabalho que estão fazendo pela humanidade.

Suas conquistas durante o presente século são conquistas que merecem o mais profundo respeito, não apenas pela "sublime paciência do investigador", da qual tão acertadamente falou William Kingdon Clifford, mas também pela abnegação com que muitos deles deram suas vidas para seguir a verdade, para estudar nos recantos mais recônditos dos fenômenos da natureza que segredos ela escondeu, o que pode haver sob o "Véu de Ísis". Não digo, pois, uma palavra contra a ciência moderna, mas lhes aponto este fato (37), de que a maior obra da ciência foram as generalizações que se sugeriram na tentativa de alcançar a simplicidade, de reduzir a multiplicidade à unidade.

Quão longe foi a ciência dessa visão geralmente aceita pela escola materialista de trinta anos atrás, de que o universo é composto de um número indefinido de átomos, sendo os átomos nossos elementos químicos! Uma frase de um dos homens de ciência mais famosos de então, o Dr. Ludwig Büchner, marcará a grandeza da mudança: declarou que o átomo de carbono sempre continuará sendo um átomo de carbono, e tem sido um átomo de carbono desde sempre por toda a eternidade; que o átomo de hidrogênio desde toda a eternidade tem sido um átomo de hidrogênio, e continuará sendo um átomo de hidrogênio por toda a eternidade; porque os átomos com suas propriedades são indestrutíveis e, portanto, são eternos.

Que homem de ciência ousaria alegar isso hoje, sabendo que todos os seus irmãos cientistas zombariam dele?; Quem diria que esses átomos são eternamente da mesma natureza que até agora se disse que são? O que a ciência está fazendo na realidade com respeito ao átomo? É encontrar no que se chama átomo um corpo composto, um composto, não um elemento.

Essa descoberta se deve principalmente às investigações de Sir William Crookes, que se guia em suas investigações por uma filosofia (38) do universo mais profunda do que é comum entre os cientistas.

É descobrir gradualmente que esses átomos são coisas que se constroem gradualmente, e que as qualidades dos átomos não são fixas, mas são propriedades que mudam com cada diferença de condições.

Pesquisas recentes demonstraram que quando os corpos químicos são submetidos a condições extraordinárias de frio — o frio que converte o ar em líquido e solidifica o hidrogênio e o oxigênio — sofrem a destruição de suas propriedades supostamente permanentes.

Está provado que, à medida que essas condições mudam, e à medida que se exercem faixas de temperatura cada vez mais baixas sobre esses elementos químicos, suas propriedades eternas desaparecem uma a uma, e permanecem ali alterados em suas atividades, e perdem os traços característicos; o que lhes permitiu serem descobertos como partes do mundo em movimento.

A temperatura desce e desce, propriedade após propriedade desaparece, até que a ciência se pergunta desconcertada: o que acontecerá quando chegarmos ao zero absoluto, o que será então das propriedades da matéria, o que restará das características dos elementos? Não há senão uma Matéria, e não são todos os elementos químicos senão modificações, agregações, dessa única matéria última? De maneira similar com a Força, a ciência moderna fez a magnífica generalização de que todas (39) as forças que conhecemos são modificações de uma Força, e são idênticas em sua natureza essencial; que o calor, a luz e todas as diversas forças que nos rodeiam, a eletricidade, o magnetismo e o restante, não são mais do que vibrações de diferentes comprimentos e atividades em um meio sutil, e que podem transmutar-se uma na outra.

Não são fundamentalmente diferentes, mas são uma e a mesma em sua raiz.

Mas se isto é assim, se não há senão uma Matéria, se não há senão uma Força, então a ciência tende agora para a unidade; e à medida que se traça ou se busca essa unidade, a ciência terá que passar do reino mais grosseiro da matéria densa ao reino das forças que atuam nos meios sutis; e encontramos esta maravilhosa mudança de que, enquanto nos velhos tempos se argumentava indutivamente a existência da força, mediante o estudo das mudanças na matéria, agora a ciência está começando a postular a existência da força e a questionar se a matéria é algo mais do que a ação da força.

Em vez de considerar um átomo como uma partícula sólida e indivisível, a tendência é considerá-lo como um vórtice de energia, um centro de força.

Um escritor chega até a sugerir que um átomo é uma fonte "através da qual um fluido invisível se verte no espaço tridimensional". Outros átomos, "antiátomos", podem ser "sumidouros" através dos quais o fluido se verte.

Se estes se unem, (40) não se pode neutralizar tanto a inércia quanto a gravidade? Não pode haver matéria potencial, e não pode ela existir no espaço, sem nenhum dos atributos que caracterizam a matéria, mas pronta para ser vivificada e formar um sistema de mundos? (Nota do tradutor: Matéria Escura?) Aqui temos os átomos de H.P.B. (Helena Blavatsky) e os centros laya, propostos tentativamente como um problema científico.

A ciência ascende ao mundo invisível e tenta medir e pesar o que ali encontra.

Ora, essa tendência à unidade é o testemunho do Uno que subjaz a toda manifestação; uma só Força, uma só Matéria; infinita diversidade de forças, transmutáveis umas nas outras; infinita diversidade de formas, que voltam a se romper para se recombinarem; apenas uma Força sob todas as forças, uma Matéria sob todas as formas.

Vê-se que o próprio fato da harmonia e da evolução aponta para uma unidade raiz, e que partículas eternamente independentes que se movessem por si mesmas apenas perpetuariam o caos.

À medida que a ciência viaja ao longo dessa linha tão esperançosa, encontramos que grandes mudanças estão surgindo na natureza dos estudos que se realizam, e temos aquela maravilhosa teoria de Sir William Crookes sobre a gênese dos elementos.

Ele toma o Protilo como ponto de partida, que é realmente Vâyu em sua forma neste plano físico: Prithivî Vâyu, e já a partir disso se constrói um átomo após outro, fazendo com que todos os (41) elementos químicos sejam corpos agregados pela ação de uma força positiva e uma negativa.

Permitam-me lembrar-lhes disso, porque alguns de vocês vão tão ansiosamente atrás da ciência moderna e desprezam sua própria literatura.

Se tivessem lido seu Vishnu Purâna, com seu cérebro, e não simplesmente com seus olhos através de óculos modernos, poderiam ter aprendido essa teoria de Sir William Crookes muito, muito antes de ele a apresentar.

Ele fez um desenho, e o desenho mostra um eixo imóvel, e ao redor dele uma bobina em espiral, e em pontos dessa bobina há átomos dos elementos químicos, gerados por essa bobina que representa uma força oscilante e de resfriamento.

Essa espiral está no grande oceano de protilo, ou matéria primigênia, e, à medida que essa espiral gira e gira ao redor do eixo inamovível, gera elementos químicos um após o outro, e assim traz à existência os materiais a partir dos quais o mundo será construído e formado.

Essa é a declaração científica seca e resumida de seu próprio discurso.

Mas eu li em um livro antigo de uma montanha, que é o emblema da estabilidade, de um eixo ao redor do qual tudo há de girar, lançado em um poderoso oceano; e li acerca de uma grande serpente que girava ao redor dessa montanha em espiral; de um lado, os Suras estão puxando e, do outro lado, os Asuras estão igualmente ocupados.

Entre os (42) dois — o positivo e o negativo da ciência moderna — inicia-se a evolução e a espiral da serpente começa a girar e girar ao redor desse eixo.

Chamam ao eixo Monte Mandara, e chamam à espiral a serpente Vâsuki, enquanto o eixo descansa sobre Hari como um pivô; chamam às forças positivas e negativas Deuses e Demônios, e sua agitação do oceano dá origem aos materiais do universo.

Sim! Isso é do vidente, que, olhando o oceano de matéria, descreveu pictoricamente o que os olhos do espírito viram ali; enquanto o outro é a seca declaração científica do pensador moderno, que elabora sua magnífica generalização como resultado de seu estudo das formas.

O vidente e o cientista se encontraram.

Mostrarei a vocês, quando tratar da vida, que a ciência moderna se aproxima de nossa visão da vida.

Darei a vocês, das últimas declarações de nossos mestres científicos modernos, pontos que mostrarão como eles estão escalando em direção à visão antiga que se encontra em nossos livros sagrados; e agora terminarei esta primeira parte de nosso tema esta manhã com uma súplica dirigida a todos vocês, que lhes rogo que pensem em seu tempo livre.

Há somente Uma Vida, a Vida de Deus, dentro de tudo em Seu universo.

Nenhuma vida senão Sua vida, nenhuma consciência senão Sua consciência, nenhum pensamento (43) senão Seu pensamento.

Esta é a nossa glória; pois, na medida em que somos à Sua imagem, podemos responder às vibrações de Seu pensamento, e podemos reproduzir em nossa mente o que Ele iniciou para que possamos evoluir.

Em todas as diferentes partes deste universo, estão ocorrendo diferentes linhas de evolução; o sol está fazendo uma parte, o mundo vegetal outra parte, o mundo animal outra, o mundo do homem outra; mas no mundo do homem há mais diversidade, porque ali está surgindo a Autoconsciência.

A imagem final do Supremo na terra é o homem; somente no homem está a vida mais elevada; os demais vão subindo em direção a ele, mas neles ainda não evoluiu.

Logo no homem há mais diferença; portanto, no homem, por enquanto, mais separação; portanto, no homem, o grande perigo de antagonismo que os reinos inferiores não conhecem, porque não estão suficientemente evoluídos.

Então vem o conflito: tomo meu próprio pobre reflexo de um diminuto pensamento de Íshvara, e digo: "Este é o próprio Íshvara", e não meu pobre pensamento d'Ele; "Adora isto como eu o vejo", ou seja, "Adora a mim em vez de Íshvara, e meu pensamento d'Ele em vez d'Ele". Assim, homem após homem apresenta sua ideia de Deus como Deus, e vemos o mundo inteiro dividido em muitas formas de pensamento e adoração.

Então um homem imagina que seus irmãos (44) homens estão adorando outros Deuses, e fica ansioso e preocupado, sem perceber que os Deuses são muitos porque estamos adorando nossos próprios pensamentos de Deus em vez de Deus, nossas próprias representações limitadas em vez do Ser Universal.

Mais ainda: eu, talvez, não apenas lhes digo que devem adorar minha concepção de Deus em vez da sua própria, que meu conhecimento é o limite da manifestação, que minhas pequenas fantasias compõem o universo em vez da infinita diversidade que só pode representar Seu poder; mas talvez vá além e diga: "Se não adoras minha ideia de Deus, és um pária, és um estranho, pertences a uma fé diferente, pertences a um credo diferente; fica do lado de fora, porque eu sou ortodoxo, vós sois hereges e blasfemadores da vossa fé". Assim fala religião após religião, fanático após fanático; assim, um homem após outro faz de seu próprio reflexo o Deus do universo e, portanto, antagoniza seus irmãos, cujas representações da imagem divina são tão necessárias para sua plenitude quanto a sua própria.

Isso é o que lhes peço que percebam.

Deus não pode se expressar totalmente em ti ou em mim, em nossas miseráveis limitações, em nossa pobreza de pensamento, em nossa miséria de suposição insolente.

Só pode ser expresso, ainda que parcialmente, por todos os mundos juntos; (45) Todo o seu universo é seu espelho, e cada fragmento do universo lhe devolve, em parte, suas próprias perfeições.

Não é mais nobre, mais grandioso, mais glorioso, ser um fragmento de um todo perfeito, fazendo parte da própria unidade do todo, servindo-a ao refletir Íshvara, do que estarmos encerrados com nosso próprio fragmento de um espelho, tentando em vão fazê-lo refletir perfeitamente o todo, e rejeitar qualquer reflexo parcial do perfeito em nossos irmãos de todos os lados? Esse é o pensamento que estas conferências encarnarão, e fracassarão em seu propósito se não o levarem às suas mentes.

Pois Íshvara, que é Existência e Inteligência, é também Ananda, Alegria, Bem-aventurança inexprimível, e essa Bem-aventurança só se realiza quando a união é alcançada conscientemente, quando o todo é conhecido como um.

Posso ajudar-vos a ver o Si mesmo em todas as coisas? Que melhor serviço pode o homem prestar ao homem? SEGUNDA LEITURA.

AS FUNÇÕES DOS DEUSES.

Irmãos meus: Aqueles de vocês que estão familiarizados com sua própria literatura sagrada saberão quão grande papel desempenham nela essas Inteligências espirituais das quais se fala como os Devas ou Deuses.

(46) Como disse ontem, a existência, a presença e o trabalho dessas Inteligências na administração da natureza, no cumprimento da vontade de Íshvara, são reconhecidos em cada grande fé que o mundo conheceu.

O hindu fala deles às vezes como Suras, às vezes como Devas; o hebreu, o cristão, o muçulmano, falam deles como Anjos e Arcanjos, fazendo a distinção entre os superiores e os inferiores; o zoroastrista também reconhece seu trabalho, falando deles como Feristhas; e assim, em cada uma das grandes religiões, encontramos a presença desses trabalhadores no Kosmos reconhecida, e vemos suas funções definidas.

Agora, é extremamente importante, especialmente talvez para os hindus, compreender quão ampla é a área (47) de seu trabalho, quão gerais são suas funções, porque talvez nenhum tema seja mais frequentemente objeto de ataque por parte daqueles que desejam prejudicar a antiga religião da Índia do que as ações dos Deuses, como detalhadas nos livros sagrados.

Continuamente encontrarão que essas ações estão sendo mal interpretadas ou deturpadas.

A deturpação, pode-se sempre esperar, não é deliberada nem consciente.

Deve-se ao materialismo geral da época.

Deve-se ao fato de que os homens que creem nominalmente em uma religião não se dão conta do efeito dessa religião em sua consciência.

De modo que, enquanto um homem pode dizer que crê em Anjos e Arcanjos e demais, ele leva sua vida como se eles não existissem.

Entre nossos irmãos cristãos há considerável diferença de opinião com respeito a esses Anjos.

Nas diferentes seções da grande comunidade cristã, a grande maioria dos que professam o cristianismo, que compõem a antiga Igreja grega, às vezes chamada Igreja cristã oriental, e os que se contam na Comunhão romana, a Igreja católica romana, as duas Igrejas antigas que têm conservado uma antiguidade ininterrupta e uma tradição ininterrupta desde a época de Cristo e Seus Apóstolos, têm mantido e mantêm, intactas e completas, a antiga crença no ministério dos anjos.

Eles realmente levam suas vidas (48) reconhecendo o papel que desempenham no mundo as hostes angélicas, e não apenas consideram os Arcanjos como os grandes governantes da natureza animada — os sete Arcanjos principais ocupando o lugar dos sete Deuses em outras religiões — mas também reconhecem que a hoste inferior de anjos se ocupa continuamente de administrar as leis naturais, de guiar a evolução humana; e, na verdade, chegam a dizer que cada homem em particular está sob o cuidado especial de um anjo da guarda, que o assiste do berço ao túmulo, que procura ajudá-lo no perigo, aconselhá-lo na tentação, protegê-lo no perigo, afastar todos os males que se lhe dirigem, e que, ajudando-o a atravessar a porta da morte, o acompanha ao outro lado pelo mundo invisível, até que entrega seu encargo nas mãos do próprio Cristo.

As comunidades protestantes, no entanto, separando-se, como se fizeram, abruptamente da antiga tradição, cheia de verdades ocultas, acabaram por perder, entre muitas outras coisas valiosas, essa crença real na obra dos anjos.

A maioria dos membros das comunidades protestantes, embora reconheça a existência dos anjos e os considere vagamente "ministros de Deus", não tem uma ideia muito definida do papel que eles desempenham no mundo.

Não se dirigem a eles, como fazem os católicos romanos e os (49) gregos.

Não lhes prestam reverência e homenagem dia após dia, nem os veem como auxiliares, como inteligências superiores a eles, sempre dispostos a lhes oferecer ajuda.

Praticamente, os anjos desapareceram de suas vidas, no que se refere à realização consciente de sua presença; e não posso deixar de pensar que a perda é uma perda muito grave quando se trata de evolução espiritual; toda a ideia do Supremo tende a se degradar e a se antropomorfizar quando os agentes intermediários são esquecidos e quando cada pequena preocupação da vida humana fica, por assim dizer, colocada diretamente sob a supervisão imediata do Supremo.

É claro que, ao reconhecer o trabalho dos Deuses, ou Devas, como os chamarei no restante da conferência, não devemos perder de vista a unidade da Deidade Suprema.

Nós, no hinduísmo, não negamos nem ignoramos a existência de Íshvara porque reconhecemos as hostes dos Devas; não obscurecemos nossa crença no Uno porque reconhecemos as inúmeras hostes dos ministros de sua vontade; não há nada mais contrário à unidade de Deus no reconhecimento das hostes dos Devas do que no reconhecimento da diversidade dos homens; no entanto, não se pretende que estejamos obscurecendo a unidade da Existência Divina quando reconhecemos as hostes dos indivíduos que (50) constituem o conjunto da humanidade.

É mero preconceito ou ignorância que leva alguém a pensar que, pelo fato de o hindu reconhecer a ação dos Devas, ele tenha, portanto, perdido sua crença na Existência Única, além até do próprio Íshvara, na unidade fundamental que subjaz à diversidade.

O que ele faz é que, em vez de considerar o mundo como supervisionado por um Deus extracósmico, separado como se estivesse de Seu universo, com um grande abismo existente entre Ele e ele, vê em Íshvara a manifestação da Vida única que penetra e sustenta tudo; vê em Íshvara a única Raiz da qual brotam todas as existências separadas; e vê, estendendo-se entre ele e esse Supremo, inúmeras hostes de Inteligências, degrau após degrau, fileira após fileira, e busca subir essa escala celestial até que também se encontre em seu topo; pois sabe que ele também é divino, embora ainda em uma etapa inicial de evolução, e reconhece a divindade mais altamente evoluída acima dele, assim como reconhece a divindade na pedra sob seus pés, em tudo o que existe neste universo de Deus.

Com esse começo, para que nosso estudo não conduza a um equívoco, passemos a perguntar-nos quais são as funções desses Devas, (51) dessas Inteligências, que trabalham no mundo.

Imediatamente te darás conta de que as funções devem ser muito diferentes, segundo o grau dos Devas que estivermos estudando.

Através de todo o Cosmos estão trabalhando.

Alguns são muito elevados, alguns estão muito pouco evoluídos acima do nível da humanidade.

Há uma grande diferença entre nós e eles, que, qualquer que seja o grau de sua vida mental, emocional e espiritual, normalmente não usam um corpo físico.

Essa é uma marca clara ou linha de separação.

O ser funcionando como homem, enquanto o espiritual, intelectual e emocional, utiliza um corpo físico para levar a cabo as atividades relacionadas com o mundo físico.

Todas as hostes de Devas estão sem essa cobertura física ou veículo; normalmente utilizam como veículo um corpo que pertence à região particular do universo em que se encontram suas atividades normais.

Suponhamos, por exemplo, que um Deva pertença essencialmente ao mundo espiritual; normalmente utilizará um corpo espiritual; se quiser funcionar no plano manásico, criará para si mesmo um corpo manásico temporário, reunindo para esse propósito a matéria desse plano e mantendo-a como seu veículo durante o período de seu funcionamento nele; se quiser funcionar na região kámica, reunirá a matéria dessa região e fará dela um corpo temporário; (52) se quiser funcionar visivelmente no mundo do homem, atrairá ao seu redor a matéria do plano físico e se fará um corpo adequado ao propósito imediato que tem em vista.

Assim com todos os demais graus.

Os Devas do mundo manásico utilizam normalmente o corpo manásico e criam o corpo kámico ou físico, já que podem necessitar de um veículo temporário.

Os da região kármica utilizam normalmente o corpo kármico e criam um veículo físico quando o requerem.

Assim, em todos os casos, o corpo ordinário do Deva se compõe da matéria da região do universo à qual pertence; mas sempre tem o poder de criar qualquer veículo que necessite para levar a cabo qualquer propósito que lhe seja encomendado.

Isso talvez lhes sugira uma razão da grande variedade de formas que um só Deus pode assumir.

Aqueles cuja visão interna está desenvolvida, que podem ver nas regiões que para os homens comuns são invisíveis, dizem que os Deuses usam muitas formas.

E algumas de suas formas têm descido tradicionalmente, descritas originalmente talvez por um grande Rishi, preservadas por seus discípulos, depois lançadas em alguma forma de terra, pedra ou metal, pintadas ou esculpidas conforme o caso; então, tal imagem do Deus é transmitida de geração em geração, e representa aquele Deva sob aquela forma particular para seus adoradores.

Encontramos muitas formas para um Deva (53), simplesmente pelo fato de que Deus faz a forma que quer para o trabalho particular que tem em mãos, e que nenhuma dessas formas o ata.

São meramente veículos transitórios criados para um propósito definido.

Algumas dessas formas são de fato relativamente permanentes, em parte devido ao culto que lhes é dirigido.

Porque o Deva frequentemente usará graciosamente uma forma particular para encontrar o pensamento de seus adoradores.

Suponhamos, por exemplo, tomando um exemplo elevado, que se Shrî Krishna quisesse revelar-Se a Si mesmo a algum Bhakta Seu, para que esse devoto pudesse ter a alegria de perceber conscientemente a presença de seu Senhor, então Ele certamente se vestiria na forma que aquele Bhakta tinha o costume de adorar e que atraiu as emoções mais profundas de seu coração.

Porque essas formas são tomadas com o próprio propósito de estimular a devoção, com o próprio objetivo de atrair o coração apresentando a Deidade ilimitada em alguma forma condicionada que a mente concreta do homem é mais ou menos capaz de captar, compreender, admirar e adorar.

Não se pode amar o vazio do espaço.

Não podes fixar teu coração nas profundezas do infinito; enganas a ti mesmo se, com tua inteligência limitada, sem treinamento nem mesmo nas formas mais baixas de Yoga, pensas que podes realizar a Brahman, o Supremo.

Com demasiada frequência, quando falamos d'Ele, (54) nenhum pensamento real responde ao nosso falar; os lábios falam, não a inteligência nem o coração.

Passo a passo temos que subir do manifestado ao não manifestado, e, em Seu amor compassivo, Deus se vela em formas de beleza para atrair o coração humano, a fim de que o coração humano se eleve em adoração a Seus Pés, e que alguma parte de Sua vida, derramando-se nele, possa permitir que o Ser do adorador se dê conta, ainda que parcialmente, de sua unidade com Ele.

Os Devas, então, em suas muitas categorias e divisões, realizam funções de acordo com seu grau.

Falando em geral, seu trabalho no mundo é guiar a evolução segundo o desígnio de Íshvara.

Isso realmente resume suas funções, embora vamos estudá-las em detalhe.

Não digo nada das vastas funções dos Devas superiores que se encontram além do nosso conhecimento, além do ensinamento que deram aos Ṛishis.

Ocupo-me unicamente daquelas funções inferiores que se relacionam com o nosso mundo e com o sistema solar do qual o nosso mundo é parte.

Tomando essa limitação, adequada à nossa ignorância, podemos estudar algumas das funções dos Deuses dentro dos limites do nosso sistema solar.

Falando em geral, como disse, essa função é guiar a evolução, adaptar-se, correlacionar, cumprir a vontade viva do Supremo, e cumprir essa vontade (55) reunindo no tempo e no espaço todos os agentes e condições necessários para levá-la a cabo.

Só há uma Vontade suprema que guia o universo, e essa Vontade aponta constantemente para o progresso, para a meta estabelecida para o universo, a meta em direção à qual ele está evoluindo.

Imutável, estável, perpétua, essa Vontade não conhece desvio; para usar uma frase cristã, "não há sombra de mudança" nessa Vontade imutável.

O universo rola pelo caminho traçado pela Vontade Divina.

Não pode ser desviado desse caminho; não pode mudar seu percurso; essa é a lei do universo, a lei sobre a qual descansamos com fé inabalável.

Mas na realização da lei neste universo onde os homens estão evoluindo, homens nos quais está o germe dessa mesma Vontade soberana e imperial de Deus, sendo o homem feito à imagem divina e contendo em si mesmo o germe dos poderes divinos, neste universo, à medida que evolui o homem, evoluem também as vontades que são separadas, pessoais, individuais.

Toda a confusão no mundo do homem se deve a essa evolução das (56) vontades separadas que não reconhecem sua raiz em Deus, mas tratam de seguir seus próprios caminhos diversos, e querem mover-se segundo seus próprios modos separados; de modo que no mundo do homem, como em nenhum outro lugar da natureza, tenhais discórdia em vez de harmonia, choque em vez de paz, luta e guerra em vez de tranquilidade.

O mundo dos minerais obedece à compulsão da lei; o mundo dos vegetais obedece à compulsão da lei; o mundo dos animais obedece à compulsão da lei; mas quando surge o homem, homem em quem o Supremo há de desenvolver-se depois de ter escalado através das etapas inferiores, no homem desperta o germe da vontade, e as vontades separadas produzem a discórdia que terminará em algo maior e mais rico do que a harmonia das pedras, dos vegetais, dos animais.

Porque quando terminar a evolução humana, milhões de vontades separadas se unirão em um poderoso acorde de união harmoniosa, e essa união das vontades que se entregam voluntariamente é mais poderosa em seus poderes, mais bela em sua expressão, do que jamais pode ser a obediência forçada.

A música que a humanidade eleva a Deus, em toda a sua variada melodia, é muito mais do que uma expressão perfeita da Divindade que pode ser extraída do monocórdio que encontramos nos reinos inferiores da natureza; mas compreenderá facilmente que quando surgem essas vontades em conflito, é necessário algo, alguém, para adaptar, correlacionar, alcançar o equilíbrio entre as forças em conflito, de modo que o único propósito possa ser satisfeito de maneira constante.

Permitam-me tomar uma ilustração concreta.

Suponhamos que eu tenha aqui uma bola que quero mover.

Essa bola pode ser movida ao longo de uma linha reta (57) de inúmeras maneiras.

Poderia dar-lhe um único impulso na direção em que quero que se mova; e ela seguiria reta nessa direção seguindo meu impulso primário.

Assim se moveria o universo se apenas contivesse minerais, vegetais e animais, se não houvesse vontades opostas dentro dele, se estivesse dentro do punho de ferro da compulsão, que nunca poderia ser resistido de nenhuma maneira.

Mas igualmente posso conduzir minha bola ao longo dessa linha reta, se eu souber o suficiente de física, correlacionando forças diferentes e opostas.

Posso enviar duas forças contra ela em um ângulo particular, e se meu ângulo for medido corretamente de acordo com a força das forças, então a bola viajará ao longo da mesma linha pela interação das duas forças, assim como pelo impacto da única (inicial); e posso aplicar três, quatro, cinco ou um milhão de forças sobre essa bola, e ainda assim ela se moverá ao longo dessa única linha definida, se as forças forem calculadas e equilibradas de modo que sua resultante seja sempre uma força ao longo dessa linha reta.

Esse equilíbrio é uma das funções dos Deuses.

Eles tomam essas vontades em guerra, essas diferentes direções que estão sendo impressas, por assim dizer, no mundo em rotação que segue o caminho da evolução; equilibram-nas, adaptam-nas e correlacionam-nas, e assim mantêm sempre o mundo viajando em linha reta (58), trazendo sempre a mesma resultante, o cumprimento da Vontade do Supremo; sem eles, essas nossas vontades produziriam uma confusão infinita, e o mundo jamais completaria sua evolução, jamais rolaria para cima até seu lugar aos Pés de Deus.

Encontramos os Deuses desempenhando outras funções que servem ao mesmo propósito.

Moldam as formas nas quais a vida em crescimento vai se expressar.

A evolução depende do poder crescente da vida que se desdobra, mas precisa de formas mediante as quais esse crescimento possa ser realizado.

Essas formas são moldadas pelos Devas, de modo que a vida, que rompe pela expansão sua forma contenedora que está gasta, possa ter outra forma na qual se adaptar à capacidade que se desenvolveu na forma que superou.

Encontraremos também que rompem as formas tanto quanto as constroem; estando sempre fixos no único objetivo de servir à evolução da vida.

Então, novamente, atuam como mestres, como guias, como conselheiros, para aqueles que foram além da evolução normal, que são os primeiros frutos da raça humana.

Não atuando como mestres diretamente para as massas, tomam os seres humanos mais avançados a seu cargo, instruem-nos diretamente, testam-nos e provam-nos, como veremos a seguir.

De modo que, embora o propósito geral seja ajudar (59) a evolução, essa ajuda é prestada de um milhão de formas, segundo as necessidades do momento.

Agora, no passado, essa obra dos Deuses foi reconhecida, e os livros sagrados estão cheios dela.

Mostraram-se continuamente entre os homens, realizaram seu trabalho, por assim dizer, em pleno resplendor do dia.

Mas agora já não se mostram aos homens em geral, e muitos esqueceram até mesmo sua existência, e muita gente, mesmo na Índia, materializada pelo pensamento no qual foram treinados, sente-se meio envergonhada de dizer que crê na existência e na obra dos Devas.

A incredulidade não faz diferença alguma, exceto para aqueles que não creem.

O trabalho dos Deuses permanece sempre o mesmo.

Estão sempre ocupados em realizar a Vontade Suprema.

Eles não se mostram por si mesmos, e somente àqueles que reconhecem sua existência e sua obra se manifestarão.

Se nos velhos tempos se mostravam como agora não o fazem, era porque os homens de então tinham reverência e amor e estavam dispostos a se inclinar diante daqueles que eram mais sábios e maiores do que eles; porque então não reinava a democracia; porque então os ignorantes não se acreditavam iguais aos sábios, nem o homem se julgava igual aos Deuses.

Naqueles dias, porque podiam ajudar, acorriam para ajudar; mas eles (60) nunca voltarão visivelmente à terra até que os homens tenham aprendido a reverenciar uma vez mais o que está acima deles, e a compreender seu lugar no Kosmos, tanto para adorar quanto para comandar.

Os deuses trabalham de todo modo.

Não são privados de suas funções por nossa loucura, por nossa vaidade, por nossa ignorância.

Eles trabalham sozinhos, sem serem vistos, e perdemos o doce consolo de sua presença visível, a força e a alegria dos velhos dias heroicos, a dignidade da companhia consciente com os Imortais, a segurança sempre renovada da vida suprafísica.

Nem uma única morte que ocorra em nossa terra, sem que um Deus tenha eliminado esse corpo cuja obra terminou; nenhuma "catástrofe natural", sem que um Deus a tenha guiado ao acontecer; nenhuma ajuda dada a um homem em necessidade, sem que um Deus seja o agente por trás do ajudante visível; nenhuma resposta ao clamor do homem em sua angústia, que não seja a resposta de um Deus à dor humana.

Em toda parte estão trabalhando.

Em toda parte estão provocando o que vemos como uma natureza mecânica morta.

Todo fenômeno é o véu de um Deus, e não há nada feito em que não intervenha uma Inteligência.

Sete são os grandes Deuses abaixo da Trindade, abaixo da Trimûrti.

Cada religião, novamente, reconhece esses Sete.

(61) O cristão fala dos "Sete Espíritos que estão diante do trono de Deus". O zoroastrista nos fala dos sete Ameshaspendas que governam o mundo.

O caldeu falou dos sete grandes deuses.

Apenas cinco estão em atividade e dois estão ocultos, porque o universo está em processo de evolução e somente cinco etapas foram alcançadas.

Portanto, apenas com relação a cinco podemos falar definitivamente quanto à sua atuação.

Os dois ocultos estão além do nosso conhecimento; estão relacionados a etapas futuras da evolução do Kosmos.

Mas os cinco consideraremos agora.

Seus nomes em relação às suas funções você conhece bastante bem.

Eles estão conectados com os tattvas dos quais falávamos ontem: o Senhor de A’kâsha, Indra; o Senhor do Ar, Vâyu; o Senhor do Fogo, Agni; o Senhor da Água, Varuna; o Senhor da Terra, às vezes chamado Kshiti (vários nomes são usados para ele); cada um desses grandes Deuses tem o que podemos chamar de uma região demarcada para a sua obra.

A matéria dessa região é a matéria na qual ele trabalha; mas além disso, cada um está representado nos reinos dos demais por uma subdivisão na qual a sua impressão se faz especialmente.

Estes são os grandes planos kósmicos dos quais falei, separados entre si pelos tattvas.

Mas se descermos ao plano físico, tratando apenas com Prithivî Tattva, encontraremos então que isso também está sete vezes dividido (62) e que temos o sólido físico, a terra física ou Prithivî, a água física ou Apas, o fogo físico ou Agni, o ar físico ou Vâyu, o éter físico ou A’kâsha. Cada um desses grandes Deuses obra em cada plano através do meio que corresponde à região que lhe pertence no Kosmos como um todo.

Com que frequência vemos essas correspondências como se estivessem impressas na natureza física.

Temos a luz com suas sete subdivisões, como se vê nos espectros solares que mostram as sete cores, e a escala com suas sete notas.

Tanto as cores quanto as notas resultam das vibrações e são determinadas pelo número de vibrações que ocorrem em uma unidade de tempo.

Como o universo está construído por vibrações, a cor e o som são fatores do universo em geral, e diz-se que cada região tem sua própria cor; o Deus dessa região tem sua cor — dependente de sua força vibratória — que imprime na região que governa; de modo que se um Ṛishi olhar o sistema solar desde um plano superior, não apenas escuta as sete notas fundamentais da música, fazendo "a harmonia das esferas", mas vê uma bela exibição de cor, como a esfera de cada grande Deva com sua própria cor interpenetra as demais, produzindo um esplendor iridescente de resplendores que interferem, o maravilhoso "arco-íris que rodeia o trono de Deus". Tais expressões místicas perderam seu significado para a maioria, porque a visão daqueles que as escreveram está muito pouco desenvolvida nos dias de hoje, e poucos são os que podem ver como viu o vidente de outrora.

Cada um desses grandes Deuses tem sob ele uma hoste de Deuses subordinados que executam seus decretos.

A constituição de um estado comum lhes dará uma imagem muito boa do governo do sistema solar.

Temos à frente um Imperador ou uma Imperatriz; depois os oficiais que representam essa autoridade suprema em divisões separadas do reino; existe uma autoridade central sobre o todo, e os oficiais que a exercem em diferentes áreas do Império.

Em seguida, esses oficiais são classificados em hierarquia, e temos Ministros, Juízes, Magistrados superiores e subordinados, em ordem descendente, cada um com um distrito cada vez menor para administrar, as funções de cada um tornando-se mais limitadas à medida que se desce na escala oficial; e cada um responsável perante seu oficial superior.

Essa é realmente uma imagem muito boa do governo do sistema solar; o chefe de tudo é o Próprio Íshvara; Seus Vice-reis são os grandes Deuses, cada um com sua própria vasta área sobre a qual governa, e cada um com sua hierarquia oficial abaixo dele, até chegar aos Devas mais baixos, que realizam o trabalho na área limitada de uma aldeia do sistema solar.

(64) Tal é o esquema, pois, das funções.

O próximo passo que devemos compreender é que, quando vemos neste plano em que está trabalhando nossa consciência, o plano físico, qualquer uma dessas formas fundamentais de manifestação, devemos tentar nos dar conta da presença de Deus por trás do fenômeno material.

Nem um fogo que arde sobre a terra, seja o fogo da montanha vulcânica, seja o fogo que se estende através da vasta floresta, seja o fogo que arde no lar doméstico ou no altar do sacrifício, que não seja Agni em manifestação, com a possibilidade de que seus poderes se tornassem visíveis.

Não eram sonhadores aqueles que na antiguidade te ordenaram manter a salvo o fogo, o fogo doméstico que o marido e a esposa acendiam no fogo nupcial, e que, quando a vida dos casados havia terminado no lar, ainda o levavam para a floresta; levavam consigo o fogo, e este os levava consigo à presença de Deus, que através da vida familiar havia abençoado, guiado, dado prosperidade e tornado possível e desejável o retiro definitivo da vida familiar.

Essa é uma das muitas verdades que a Índia moderna está perdendo.

Mas quando se acreditava nessas coisas e se realizavam as cerimônias relacionadas a elas, então a natureza trabalhava em uma ordem definida, e não havia as mesmas irregularidades contínuas que temos em nossos dias modernos.

Por essa obra harmoniosa entre o homem e os Deuses, a natureza respondia ao homem assim como o homem respondia à natureza; enquanto o homem cumpria seu dever, a natureza, por sua vez, também cumpria o seu; a falta de chuva, a falta de (65) colheitas, a falta de sol, a presença de pragas ou qualquer outra forma de miséria humana, considerava-se que tinham sua raiz no fracasso da humanidade; e o homem voltava-se obedientemente para aquilo que havia negligenciado, e assim reajustava o equilíbrio que sua irregularidade havia deslocado.

Tentemos ver, como exemplo, um trabalho concreto no que chamamos de evolução natural.

Voltar-nos-emos ao grande Deus Varuna.

Ele trabalha através da água; toda manifestação de água é sua, seja no plano físico ou em qualquer outro, em qualquer uma das formas que possa assumir, porque o que chamamos de "água" é naturalmente a manifestação mais baixa e grosseira, seu corpo físico, por assim dizer.

Ele trabalha com ela na natureza de infinitas maneiras para dissolvê-la, combiná-la, dissociá-la.

Quando tomamos as operações maiores, quão grandioso é o conceito que podemos obter do poder de Deus.

Volte comigo, bem atrás, no passado, antes de que a humanidade tivesse tomado forma; ali veja o mundo como era então; veja como o fogo e a água, Agni e Varuna, estão trabalhando em cada material para adaptar o mundo para que seja o lugar de nascimento da humanidade ainda não nascida.

Vede como Varuna (66) está trabalhando para preparar o que se quer de montanha e de vale, de rio e de planície; vede o poder de seu trabalho, assim como o de seu irmão Agni, em aparente choque, mas realmente em harmonia; o fogo e a água se encontram, explodem e lançam uma cadeia montanhosa onde antes não havia; vede como ele recolhe neve nos picos das montanhas e enche gradualmente com massas dessa neve, congelada em gelo, as gargantas das montanhas feitas pela ação vulcânica combinada; vede como começa a lenta lavoura; arar, arar e voltar a arar, como o poderoso Deus trabalha adiante em forma de geleiras, abrindo seu sulco na terra e preparando-se para o futuro; vede, séculos depois, como o leito aberto pela geleira se enche com as cachoeiras que caem da neve derretida, e um torrente turbulento rola para baixo, e contra suas ondas irresistíveis nada pode resistir; o vale escavado pelo arado do gelo se enche de água, e dele se deposita gradualmente a terra, que no futuro fará terra fértil para as colheitas, a fim de que o homem possa viver.

Então Varuna une suas águas em um canal cada vez mais estreito, até que haja uma cordilheira e um vale e um rio que flui através deles; e ele leva seu rio para baixo e o verte no mar, e seu irmão Agni o extrai novamente para formar as nuvens.

Chegou, por essa ação poderosa (67), por mais destrutiva que pareça em aparência, a construção da planície e do vale onde os homens viverão e amarão, onde as crianças brincarão, onde os cavalos pastarão, onde o milho crescerá e amadurecerá à luz do sol, e onde, nas tranquilas margens do rio, os homens adorarão ao Deus que tornou possível sua vida feliz.

Falamos da "crueldade da natureza". Tentemos entender o que significa essa crueldade.

O mundo agora está habitado.

Multidões de homens estão aqui, e eis! o rio, que tornou possível a habitação do vale e o mantém frutífero, agora transborda, e a poderosa inundação arrasa aldeias e povoados, homens, mulheres, crianças e gado, e só resta desolação.

O que é isto? É este horror uma obra divina? O que é isto que fez Varuna? Varuna está trabalhando para a evolução.

Seu pensamento não se fixa nas formas em que se encerra a vida, mas na vida que se desenvolve nelas, que pode tornar-se novas formas.

Quando esses homens são varridos, o que acontece é apenas a ruptura das formas; a vida surge ilesa e liberada; porque o corpo é a prisão da vida em evolução, e se as portas da prisão nunca se abrissem de par em par, estaríamos na cadeia toda a nossa vida e não progrediríamos no futuro.

O Deus para quem a forma não é nada (68) e a vida tudo, para quem a forma não é mais que um veículo mutável e conveniente, e a vida que molda a forma é a única coisa digna de pensamento, ele elimina a forma quando seu propósito se completa; para ele tal destruição é o ato da caridade mais poderosa; é o ato mais útil para a evolução.

Nos equivocamos, irmãos meus, quando olhamos a morte com os olhos cheios de lágrimas, com o coração que se parte.

A morte é quem nos leva a um nascimento superior, e quem liberta a alma aprisionada; é a libertação do pássaro confinado dentro dos limites de uma gaiola, permitindo-lhe voar para os céus, cantando, enquanto caminha, com alegria pela liberdade que recuperou.

Parece estranho? Tomemos uma ilustração do Mahâbhârata: —Houve um conselho entre os Deuses em Svarga, sobre como alguns deles encarnariam na terra para ajudar os homens em uma grande crise na história do mundo.

Necessitavam-se grandes homens, e levantou-se a questão de se alguns dos deuses estavam dispostos a se vincular dentro dos limites da forma humana, a fim de prestar uma ajuda especial ao progresso humano; entre os que se necessitavam para a obra que vinha estava o filho de Soma Deva, Varchas, como era chamado, e os Deuses desejavam que este Deva nascesse na terra.

Soma Deva hesitou.

Não estava disposto a que (69) seu filho o deixasse a ele e à vida celestial, e embora finalmente consentisse em que nascesse como Abhimanyu, o filho de Arjuna, foi apenas com a condição de que vivesse apenas durante dezesseis anos, e fosse morto na grande batalha de Kurukshetra. Você diz: que estranha visão da vida! Que extraordinária condição para fazer o amor, que este jovem morra aos dezesseis anos, na flor mesma de sua virilidade alvorecente, morra de uma morte violenta.

No entanto, essa foi a vontade de quem mais o amava, porque o céu vê com olhos diferentes dos da terra.

Soma viu a vida e não se preocupou com a forma; para um Deus a forma é uma prisão, a morte é a carcereira que liberta; por isso se estabeleceu a condição de que apenas durante dezesseis anos o divino jovem vivesse uma vida humana, e então "meu filho dos braços poderosos voltará a mim", e isso de um campo de batalha, morrendo gloriosamente em meio à luta.

Sabes que às vezes o afundamento de uma civilização por uma convulsão natural, como a queda da Atlântida sob as ondas do oceano que agora chamamos de Atlântico, a aniquilação de toda a nação ou raça, é a melhor prova de amor que o Supremo Íshvara, através de Seus agentes intermediários, pode mostrar às vidas ali encarnadas.

Porque há etapas na história do mundo (70) em que o homem está tão apaixonadamente voltado para uma linha de ação que vai contra seu progresso real, quando fixa seus desejos com tanta determinação em objetos que o detêm e atrasam sua evolução, que a única misericórdia que os deuses podem lhe mostrar é romper sua forma em pedaços e dar-lhe, por assim dizer, um novo começo para a evolução de si mesmo: a vida.

Às vezes senti, ao passar por algumas das misérias de nossas grandes cidades do Oeste, quando, no cumprimento do meu dever, fui com o coração partido pelos bairros pobres do leste e do sul de Londres, ou pelos de Glasgow, Edimburgo ou Sheffield, como notei os tipos de homens e mulheres que me rodeiam, como vi o ser humano quase velado pelo bruto, e a humanidade degradada quase além da possibilidade de reconhecimento, que nenhum pedido de ajuda foi apropriado exceto um que libertasse essa vida aprisionada.

Senti que nada, exceto a destruição das formas, poderia dar alguma esperança àqueles que estão aprisionados dentro delas; que para esses homens e mulheres, tais como eram, degradados, brutais, bêbados, libertinos, suas próprias formas com a marca do animal, a melhor misericórdia que Deus poderia lhes mostrar seria um terremoto que engolisse toda a grande cidade e se dispusesse a libertar as vidas reprimidas sem esperança dentro dela. Porque nem uma única vida se perderia, nem uma única vida (71) morreria, mas seriam libertadas para assumir formas algo menos plásticas e dar lugar àquele trabalho divino rumo à evolução, que em casos extremos só é possível quando as formas, as formas do mal, já se foram.

Falamos às vezes que a formação das crianças é mais fácil do que a dos adultos, porque são mais plásticas.

Assim também os Deuses querem frequentemente o eu-criança na forma plástica em vez de na prisão-casa que se tornou rígida pela idade; e por isso rompem esse ambiente para que a vida jovem possa crescer.

Outra grande função dos Deuses é lidar com o karma das nações, o "karma coletivo", como às vezes é chamado.

Suponhamos que uma nação aja em sua capacidade coletiva — não me refiro agora aos indivíduos trazidos a ela por seu karma individual, mas à nação agindo como uma unidade — e suponhamos que ela cometa um crime contra outra nação.

Houve um trabalho de karma tão tremendo durante o último ano, que o tomarei como ilustração: Espanha.

Há alguns séculos, a Espanha estava no auge de seu poder; poderosa era ela entre as nações ocidentais.

Foi-lhe enviado, para ajudá-la a avançar, o dom de novos conhecimentos.

Chegou verdadeiramente de uma forma um tanto inaceitável, porque vinha da Arábia, com o selo de Muhammad sobre ele; trouxeram-no os filhos do Islã; eles trouxeram (72) a luz da ciência consigo, e, ao se estabelecerem no sul da Espanha, deram essa luz à Espanha.

Estabeleceram-se universidades.

Formaram-se grandes classes.

Homens de todas as partes da Europa acorrem em massa às Escolas de Córdoba, e ali aprenderam os princípios da Ciência que desde então se tornou uma árvore tão poderosa nas terras ocidentais.

O que fez a Espanha? A Espanha convocou contra esses mouros, e contra os hebreus, que também eram sábios na ciência do Oriente, as terríveis armas da Inquisição, a fogueira, o potro, o calabouço, o suplício do exílio.

Quem pode contar as centenas de milhares expulsos de suas casas, as famílias desfeitas, as misérias, a pobreza e a fome intoleráveis, que marcaram a expulsão dos judeus e dos mouros da Espanha? Ainda assim, seu carma de sucesso não estava completo.

Cruzou o oceano Atlântico a toda velocidade; a Itália emprestou um de seus filhos para a glória do Império Espanhol.

Após as naves de Colombo, seguiram-se as naves dos conquistadores da América, repletas de soldados espanhóis.

Não posso me deter na história da conquista do México e na ainda mais terrível conquista do Peru; não tenho tempo para dilacerar seus corações, como poderia fazer, com a história da destruição de uma grande civilização, da eliminação dos últimos vestígios requintados no Peru de uma das civilizações mais perfeitas (73) que nosso mundo já conheceu, do esmagamento da mansa raça indígena ali por correntes, por prisões, afastada do Sol glorioso cujos filhos foram seus Incas.

Mansos demais para lutar, acostumados apenas a uma vida de flores, de música e de sol, foram amontoados em cavernas que os fizeram cavar em antigos penhascos, morrendo aos milhares e milhares na escavação do ouro e da prata que seus conquistadores espanhóis exigiram, até que pereceu o próprio nome da antiga nação, e restaram apenas alguns índios peruanos dispersos para representar o que foi uma das civilizações mais belas do mundo.

Tal foi o carma criado pela Espanha nos dias de sua glória, e o horror de suas conquistas afundou no esquecimento do passado.

Mas os deuses esquecem? Não, sua memória é perfeita.

São os administradores da lei divina e dão a colheita aos semeadores.

Da mesma pátria que ultrajaram, da mesma terra que conquistaram, surge uma nova nação à medida que os séculos passam para retomar a velha luta entre os dois hemisférios, e hoje vimos a América e a Espanha se fecharem novamente no punho mortal, mas o prato da balança pesa agora do outro lado, e a América se torna o agente cármico para solucionar os males dos astecas e dos peruanos, e para expulsar do hemisfério ocidental a nação (74) que ali ultrajou a humanidade nos séculos passados.

Portanto, os Deuses são necessários para unir as nações a fim de equilibrar essas contas entre as raças e assim restabelecer o equilíbrio uma vez mais.

Assim eles trabalham, utilizando os homens como seus agentes, e produzem esses resultados nacionais.

Em parte o fazem dando à luz, em um momento determinado, a homens cujo karma individual os capacita para serem os agentes do karma coletivo da nação.

O que foi mais surpreendente na guerra espanhola que acaba de terminar, que a absoluta incapacidade mostrada pelos homens que foram os governantes da Espanha? De onde vieram? Eram homens que em outro tempo, por seu karma individual, se haviam preparado para a triste sorte de governantes incapazes, e foram guiados pelos Deuses a nascer nas famílias que dão governantes à Espanha, para que por sua fraqueza e inépcia, por sua covardia e sua falta de previsão, pudessem servir como homens para levar sua nação à destruição, os instrumentos adequados para a elaboração do mau karma da Espanha.

Veja também como no momento adequado se levantam grandes homens para levar uma nação à vitória.

Esses homens também são escolhidos pelos Deuses de antemão devido à sua individualidade, karma, e nascem no lugar e no momento em que são necessários para a elaboração do karma coletivo (75) de uma nação.

Não é casualidade que um homem venha ao mundo, não pela compulsão de uma lei morta, ou de uma necessidade cega; os Deuses estão trabalhando aqui com uma inteligência que prevê e guia, e escolhem para o cumprimento de seus fins os homens cujo próprio karma os capacita para que sejam seus agentes para o trabalho em questão, e então os guiam para que nasçam no lugar onde o karma possa servir ao karma coletivo de seu povo.

Isso também é verdadeiro de uma maneira muito mais limitada com respeito ao funcionamento do karma individual.

Às vezes você deve ter se perguntado como, com todas as atividades intrometidas dos homens, a lei kármica poderia funcionar com uma justiça inabalável; é porque os Deuses estão guiando o trabalho.

Você vê em algum lugar um homem que está morrendo de fome e, se você interpreta mal o karma, como muitos de vocês o fazem, para vergonha da Índia, em uma terra onde este ensinamento é de uma antiguidade imemorial, você se afasta desse homem faminto e diz que é seu karma morrer de fome e perecer; em vossos corações endurecidos usais a vontade de Deus como tampa do vosso próprio egoísmo, da vossa indiferença e do vosso desamor.

O karma daquele homem de morrer de fome? Sim, e por isso ele morre de fome! Mas se um Deva te guia ao lugar onde teu irmão está morrendo de fome, é porque te tornaria o agente de sua (76) beneficência para aquele homem cujo mau karma do momento presente foi esgotado por seu sofrimento; o Deva te diz assim: "Homem, teu irmão, o homem, está morrendo de fome, dá-lhe o alívio que é seu karma receber, e sê meu agente no cumprimento da lei". Mas se rejeitas a Deus, se, cegado pela ignorância ou indiferença, te desvias e não levas sua mensagem a teu irmão, ele não se desanimará por isso, buscará algum outro agente, ou, como último recurso, ele mesmo o fará por algum ato que possa parecer milagroso aos olhos dos cegos, porque o propósito de Deus não pode ser bloqueado; mas para aqueles que se recusaram a agir como seus agentes, que se recusaram a agir como seus mensageiros, criou-se o karma de ficarem sem ajuda quando chegar a hora de sua própria necessidade no futuro.

Porque os administradores da boa lei não se esquecem; cada dívida é cobrada, cada credor é pago integralmente.

Mas podes dizer que não se segue que o karma de um homem tenha sido esgotado quando te encontras com ele; certo, mas isso não é assunto teu, é assunto do Deus guia, e ele frustrará a ajuda física se o karma ainda for mau.

Se te foi dada a oportunidade de fazer bom karma, tens todo o mérito de tua disposição para agir, tens toda a virtude de tua disposição para o sacrifício; (77) mas se ainda não é seu tempo de ser aliviado, não o farás; encontra o objeto de tua caridade; pelas circunstâncias, como dirias, terá ficado fora de teu alcance.

Deixai que os Deuses façam o trabalho dos Deuses, a administração da lei; faze tu essa caridade, esse amor e essa compaixão, que é sempre sua vontade que o homem mostre ao homem.

Não podemos quebrantar a lei; não podemos mudar seu propósito; mas temos a opção de colaborar ou rejeitar, e disso depende nosso karma individual.

Depois encontramos ainda que os Devas unem as pessoas e as separam, sempre para a elaboração de seus karmas individuais; que os homens são guiados a lugares e posições em tempos definidos, de acordo com aquelas circunstâncias que, por seu karma, devem enfrentar.

Agora, os homens estão relacionados especialmente com um ou outro dos grandes deuses, pela constituição de seus corpos visíveis e invisíveis.

Isso lhes dá uma afinidade especial por um Deva mais do que por outro.

Por exemplo, as hostes inferiores de Devas que, digamos, pertencem a Agni, constroem nos corpos invisíveis e visíveis de um homem o tipo de matéria na qual esse Deus normalmente trabalha.

Isso dá ao homem uma relação com esse Deus em particular.

Todo homem está conectado com uma manifestação especial de Deus, a quem por sua constituição e evolução deve (78) voltar-se.

Infelizmente, a ignorância ocupou tão amplamente o lugar do conhecimento, que é difícil para um homem descobrir com qual Deva está relacionado.

Não tenho tempo para trabalhar nisso, mas verão quão completamente se apoia a antiga ideia de que os homens adoravam corretamente diferentes manifestações do Divino e se beneficiavam de tal adoração.

Mas devemos nos apressar com este esboço, porque ainda temos que tratar das almas mais altamente evoluídas, e em sua compreensão, esta última parte de nosso tema dependerá de seu poder para defender nossa literatura sagrada quando for atacada por aqueles que o fazem por não a entenderem.

Portanto, pedirei que o acompanhem cuidadosamente, e poderão aplicar os princípios que ilustrarei com histórias especiais em outros cem casos.

Os Devas, em sua relação com as vidas humanas mais avançadas, têm essa função de ensinar à qual aludi, e também a função de prová-los e colocá-los à prova, para ver até que ponto são dignos e confiáveis, testando todos os seus pontos fracos para que esses pontos fracos sejam removidos, provando-os, onde ainda resta algum germe de vício, para que esse germe de vício seja erradicado.

Tratemos de nos dar conta da natureza desse trabalho.

Suponhamos que vemos um homem que fez um grande progresso.

Ele se aproxima (79) do fim de seus nascimentos.

Nesse homem ainda resta algum germe de maldade que ainda não se manifestou por obra do karma.

Ele será libertado, mas não pode ser libertado enquanto permanecer esse germe.

O que será feito com ele? Esse germe do mal deve ser acelerado até sua maturação.

Deve ser feito crescer mais rapidamente do que de outro modo cresceria.

É preciso libertá-lo, a todo custo, da dor, da angústia e da degradação temporal, e Deus realizará a ação que amadureça esse germe e o faça frutificar; de modo que o homem que age como agiria quando esse germe tivesse amadurecido pela evolução possa sofrer os resultados que derivariam do erro, e mediante tal sofrimento possa libertar-se desse mal em sua natureza, que de outro modo lhe teria impedido de alcançar a liberação.

Deixa-me dar-te uma história para cada um destes, para esclarecer a ação.

Vês que um homem é forte e bom; mas essa força deve ser provada para ver se há uma falha em alguma parte; se há uma corda da qual dependerá a vida de um homem, sustentando-a e descendo por um precipício, essa corda deve ser puxada e testada para ver se há algum ponto fraco nela que possa romper-se quando o corpo do homem estiver pendurado nela, para que ele caísse.

Pode haver um defeito na corda, e até que não tenha sido testada, o homem não arriscará sua vida nela.

Quanto menos, então, arriscará o Deva o progresso de um homem avançado numa virtude que não é suficientemente forte para suportar todas as tensões? Ele a testará com todas as possibilidades de tensão, até que tenha demonstrado ser suficientemente forte para suportar o peso que deve suportar.

Tomaremos nossas histórias do Mahâbhârata, que todos vocês conhecem, ou deveriam conhecer.

Arjuna buscava obter armas divinas; ele ia ser um grande líder numa batalha ainda no futuro.

Estamos na época dos treze anos de exílio, e recordarão que ele passou muitos desses anos na busca dessas armas.

Durante sua busca, ele procurou Maheshvara, que lhe havia prometido dar Sua própria arma, e realizou muitas austeridades para poder chegar puro à presença de Deus.

Um dia, enquanto realizava a adoração, passou um javali; ao mesmo tempo apareceu um caçador, um caçador de casta muito baixa, um caçador dos montes.

Agora recordas que Arjuna era um Kshattriya e, consequentemente, tomou seu arco para atirar no javali; o caçador também levantou seu arco para atirar no javali.

Duas flechas saíram dos dois lados e o javali foi ferido de morte.

Arjuna ficou muito irritado com a interferência desse caçador de casta baixa e gritou: "Como ousas atirar no (81) javali que era meu?" e começou a lutar e a ameaçá-lo de morte.

Disse o caçador: "Se queres lutar, luta"; naquele momento, Arjuna lançou uma chuva de flechas sobre o caçador, mas todas caíram diante dele.

O caçador, rindo, disse: "Excelente! Excelente! Avante! Avante!"; e Arjuna lançou-lhe arma após arma, mas tudo fracassou.

Caíam-lhe flechas, tudo se quebrava contra ele: árvores, rochas, tudo; permaneceu intacto e ileso, até que finalmente se revelou como Mahâdeva, e elogiou o homem que se defendera contra o Deus.

Assim provou a força de Arjuna; poderia ele ser enviado a Kurukshetra com armas celestiais se sua força fosse demasiado pequena para a luta? Prova-o contra a potência Divina, limitada para ser enfrentada e combatida; quando se descobrir que sua coragem é intrépida e sua força suficiente, então envia-o a Kurukshetra provado, e capaz de conduzir seus homens à vitória.

Tomemos outro caso, mais difícil.

Yudhishthira está triste de coração; está lutando, fracassou e está em perigo.

Drona está ali, liderando as hostes de seus inimigos, e ele o expulsou do campo de batalha.

Ninguém é capaz de enfrentar Drona; todos fogem diante do rosto desse poderoso guerreiro; ele devolve cada ataque.

O que se pode fazer? Yudhishthira está desesperado.

Há de ser conquistado? (82) Um rei imaculado foi este filho de Pându, uma das figuras mais nobres e íntegras que pinta a literatura antiga; mas com uma tensão de fraqueza nele que, em tempos críticos, às vezes mostraria uma disposição demasiado grande a ceder, demasiado pouco do poder do Kshattriya para estar só contra qualquer força que pudesse opor-se a ele; ali estava um pequeno germe de fraqueza, que continha a possibilidade de uma queda fatal.

Shrî Kṛiṣhṇa está ali, o grande Avatâra, e Bhîma chega correndo do campo de batalha dizendo que matou um elefante, cujo nome é o mesmo que o do filho de Drona.

Se Drona souber que seu filho Ashvatthâmâ está morto, deixará cair suas armas, deixará ir seu inimigo; não lutará mais quando seu amado se tiver ido.

"Disse-lhe que Ashvatthâmâ estava morto, mas ele não me acreditou; enviou-me a ti dizendo que Yudhishthira é um devoto da verdade, não dirá uma mentira pela soberania dos três mundos.

Se ele disser que Ashvatthâmâ está morto, eu acreditarei." Terrível é a tensão; poderosa a força exercida contra o homem que tem uma fraqueza nele; e Shrî Krishna, de pé junto a ele, observando-o firmemente, aconselha-o a pronunciar o que não é verdade.

Deus aconselha isso ao homem íntegro para dizer uma mentira? Que estranha a cena! Yudhishthira, rendendo-se a Shrî Krishna, diz a mentira (83), e Drona deixa cair suas armas e é assassinado mais adiante; bem poderíamos perguntar-nos: o que é isto que estudamos? Mas quando recordamos que uma das grandes funções do Mestre, o Gurudeva, é trazer à tona qualquer fraqueza inerente a Seu discípulo, porque de outro modo essa fraqueza manterá o homem atado, e ele não será apto para ser liberado, fazemos uma pausa e seguimos lendo.

Quando se pronunciou essa mentira, o carro de Yudhishthira afundou-se até o chão, sem poder sustentar-se mais, tendo sido violada a verdade.

E como passaram os anos, a amargura daquilo ficou na lembrança de uma falsidade; a dor da morte do preceptor por uma mentira que carregou profundamente no coração do rei; nunca se recuperou dela, nunca se desfez de seu efeito; uma e outra vez rompe seu repouso na angústia; "Matei meu Gurú". A pena trabalhou e a vergonha, até que a angústia purificou aquela nobre alma da última mancha de fraqueza; e quando terminar a Grande Jornada, quando sua esposa e seus irmãos jazem mortos atrás dele e ele não pronuncie uma palavra de protesto pela morte de sua amada, quando estiver pronto para ascender ao céu, quando só restar com ele uma criatura vivente, o cão que o havia seguido fielmente em todas as suas andanças desde que saiu de sua capital, quando esse cão permaneceu como seu único companheiro, confiando fielmente no amor de seu amo até a morte, então desce um Deus poderoso e se coloca a seu lado; "Chegou tua hora; sobe ao meu carro celestial, e ascende em teu corpo ao céu onde ganhaste o direito de sentar-te e reinar". Cederá agora ao convite de Deus? Disse: "Este cão está aqui, confiou em minha proteção e não posso deixá-lo só; devo levá-lo comigo". O Deus respondeu: "Os cães não têm lugar no céu; os cães são imundos, não há lugar para eles ali; deixaste para trás teus irmãos mortos, e tua esposa quando ela pereceu; por que deverias ficar ainda com este cão?" "Todos estão mortos", respondeu, "porque os mortos, os vivos não podem fazer nada.

Esta criatura ainda vive e buscou minha proteção; não a abandonarei". "Não", disse o Deus, "não sejas tão tolo; deixa o cão ali". Mas Yudhishthira manteve-se firme; era forte o bastante para opor-se a Deus e mostrar justiça e fidelidade ao pobre bruto que nele depositara seu amor; a menos que pudesse levar o cão consigo, permaneceria na terra e cumpriria seu dever.

Essa lição ele aprendera com sua queda; tal é o resultado do trabalho de Shrî Krishna em sua evolução.

Podemos ver esse mesmo funcionamento ao longo de toda essa luta.

(85) Rastreie Shrî Krishna através das páginas do Mahâbhârata, e encontrará que Ele nunca se desvia de um propósito firme: conduzir a grande luta a um desfecho previsto, onde a justiça triunfe e os Kshattriyas da Índia desapareçam; Ele estava destruindo a injustiça e preparando o futuro da Índia ao mesmo tempo, derrubando o muro de ferro de sua casta guerreira que a cercava com segurança.

Há um objetivo particular em tudo o que Ele faz, e vereis que Seu propósito é inamovível, se estudardes cuidadosamente.

Ele está trabalhando para alcançá-lo o tempo todo.

Observai a maneira como Ele intervém quando Sua força ou proteção são necessárias; vede como Ele procura estimular os Pândavas a cumprir seu dever, e só toma Seu lugar quando eles falham.

Vede o caso em que Shri Krishna, tendo prometido que não lutaria, Arjuna hesita diante do rosto de Bhishma e não tem coragem de atacar; lembrais como foi triste a luta.

Arjuna não conseguia ferir com dureza a Bhishma, o maior de todos os homens e de todos os guerreiros, perfeito no Dharma, o avô e mestre de todos.

"Como posso matá-lo?" insistia Arjuna; "Lembro-me de quando, sendo um menino coberto de poeira, subia em seus joelhos e, abraçando-o, chamava-o de 'Pai', e ele me dizia: 'Eu sou o pai de teu pai'. Como posso decidir matá-lo?" E recordareis como o próprio Shri Krishna lhe disse que não recuasse, "ordenou-lhe que o matasse". Difícil foi a tarefa; a memória de Arjuna era forte demais para ele; apenas lutava em aparência com poder moderado, não com vigor, até que finalmente Shri Krishna viu que devia estimular aquele homem a cumprir seu dever e lutar, ainda que contra seu antigo mestre; Ele lança as rédeas de Seus cavalos, toma o chicote e salta do carro, e com o chicote atravessa o pior da batalha para atacar o próprio Bhishma.

Ai! essa visão é dura para Arjuna; atrai-o como Kshattriya, e ele se lembra do dever em vez da emoção; lançando seus braços ao redor de Shri Krishna para detê-lo, diz: "Volta! Volta! e leva-me uma vez mais, e cumprirei meu dever mesmo que seja para matar Bhishma". Agora, o que isso significa? Significa que o propósito de Deus se cumprirá, quer se encontre ou não um homem para fazê-lo; que a evolução prosseguirá, não importa quem desfaleça ou quem obstrua; que enquanto a evolução continua sob a Vontade de Deus, o progresso individual depende da cooperação individual com essa Vontade; que Deus faz evoluir Seus agentes ao colocá-los em Sua obra, e que seu progresso depende da medida em que são capazes de receber o impulso que Ele transmite.

Somente tomarei outro caso para mostrar como Shri Krishna agia quando a força era demasiado grande para que Arjuna a alcançasse, quando viu que Arjuna nada podia fazer com todo o valor de que dispunha, que nenhuma força de apelo, nenhum estímulo, podia permitir-lhe defender-se.

Lançou-se uma arma que não podia errar sua pontaria, uma arma celestial que Ele havia dado como uma bênção, quando despertou de Seus mil anos de sono.

Essa arma foi lançada contra Arjuna.

Arjuna não pôde evitá-la.

Única entre todas as armas na terra e no céu, essa arma devia chegar ao seu fim, e Arjuna teria sido morto em meio à batalha.

O que se pode fazer? Não pôde cortá-la com as flechas de Gândiva, não pôde usar contra ela nenhuma das poderosas armas que os Deuses lhe haviam dado.

Esta era a arma do Supremo, à qual nada podia opor-se.

Shri Krishna então, naquele último momento, quando a arma voa diretamente para o peito do guerreiro, lança-se à frente e, quando ela golpeia Seu peito, conhece seu Mestre e se transforma em uma guirlanda de flores.

Assim também com o carro em que conduzia.

Pediu a Arjuna que primeiro descesse.

Ordenou-lhe que tomasse suas armas, e até que Arjuna as houvesse deixado, Shri Krishna permaneceu ali imóvel, não se moveu; e no momento em que ele deixou tudo, o carro irrompeu em chamas, porque somente Sua presença (88) o havia mantido unido; Aquele que era o Senhor do fogo, assim como o Senhor de tudo o mais.

Vede, irmãos meus, quão fecundo é o estudo desta matéria, quando tratais da sagrada literatura; como podeis explicá-la aos homens de vossa própria fé e defendê-la contra os ataques dos homens de outros credos.

Não a defendam com palavras amargas, não a defendam com linguagem áspera, não a defendam com ira em sua mente, e indignação envenenando sua língua; mas lembrai-vos de que onde a ignorância ataca, é dever do saber defender; e que quando o que a ignorância ataca é o alimento espiritual de milhões, todo homem de conhecimento deve avançar para defendê-lo, não seja que os ignorantes dessa fé se desviem, quando veem as verdades em seus livros atacadas por aqueles que não entendem.

Esse é então o resultado desta conferência.

Peço-lhes que lembrem que em cada etapa de sua vida, os Deuses os rodeiam.

Não há karma que façais, que eles não recordarão; nenhuma súplica que façais, que não respondam.

Se por um momento parecer não haver resposta, ou se cair sobre ti uma dor que te assusta, lembra-te de que a mão do amor permite que caia assim, e que ao suportar essa dor com coragem, estás obrando rapidamente em tua própria liberação.

Deveis ser homens, não (89) crianças, no futuro; homens-filhos do Íshvara vivente cuja imagem sois vós, e não bebês que Ele deva carregar para sempre em Seus braços.

Ele vos pede a força dos homens para ajudar os Deuses.

Ele os está fazendo evoluir como os agentes de Seu futuro universo.

Podes demorar-te, se quiseres.

Podes perder tempo, se quiseres. Kalpa após Kalpa, podes permanecer em um nível baixo.

Se assim o escolheres, Ele não forçará tua vontade; mas vossa sabedoria está em deixar que Sua Vontade opere em vós para vossa rápida e perfeita evolução, para que tenhais a alegria de cumprir essa Vontade em outros mundos, de ser conscientemente seus agentes em outras condições; porque os homens são deuses em formação, e estamos nos preparando para desempenhar as funções dos deuses.

TERCEIRA CONFERÊNCIA.

EVOLUÇÃO DA VIDA.

Meus irmãos, chegamos a um ponto em nosso estudo a partir do qual podemos começar a rastrear a Evolução da Vida em nosso próprio sistema: a evolução ocorre nos diversos planetas, mas é semelhante em seu esquema geral, embora modificada em seus detalhes nos diferentes globos.

Principalmente nos limitaremos ao nosso próprio mundo e à nossa própria humanidade; no início seremos obrigados a ir um pouco mais longe, mas para a maior parte de nosso estudo podemos nos limitar à evolução da vida em nossa terra.

Agora buscamos em nosso estudo encontrar um terreno comum de acordo sobre o qual possa surgir a cooperação entre pessoas de diferentes crenças e de diferentes escolas de pensamento.

Se estamos tentando encontrar um ponto de encontro para a ciência ocidental e a oriental, se estamos buscando à luz da religião compreender alguns dos mistérios da vida, é correto e adequado que lembremos que nenhuma religião tem um monopólio da verdade, e que qualquer um (91) que esteja tentando expor a verdade deve ser capaz de fortalecer sua posição a partir das diferentes religiões do mundo, e mostrar que sobre todas as grandes, essenciais e fundamentais verdades elas falam com uma só voz, ensinam uma lição idêntica.

Portanto, ao tratar do meu tema nesta manhã, como antes, chamarei sua atenção para os pontos principais onde poderia surgir um desafio ao consenso da opinião religiosa, às declarações definitivas dos Mestres do mundo; para que se ajude a desenvolver entre nós a tendência à unidade, da qual depende a evolução futura da vida.

E há uma razão especial para isso justamente agora.

Veremos, à medida que seguirmos a evolução da vida, que estamos na própria crise da evolução intelectual, e descobriremos que a característica dessa etapa da evolução é a divisão e a separação, e a colocação do indivíduo à parte do resto, e algo em conflito com outros indivíduos.

E descobriremos que a próxima etapa na evolução da vida é a busca da união entre as unidades individualizadas; que o próximo aspecto divino que o homem tem de desenvolver no Ser dentro de si é o aspecto de união e não o aspecto de diversidade; e é de importância que aqueles que buscam a luz, aqueles que se esforçam por cooperar com a natureza mediante a compreensão de suas formas ocultas, compreendam o próximo passo da evolução, assim como o presente, para que possam cooperar com a natureza por si mesmos dando esse passo, acelerando assim a possibilidade de dar um passo semelhante para toda a humanidade.

Agora, com respeito à vida em sua relação com as formas, atualmente está ocorrendo uma mudança no pensamento da ciência ocidental.

Detenho-me nisso por um momento para corroborar essa afirmação, porque é importante na busca dos meios para unir os dois tipos de ciência, antiga e moderna, notar o quanto a posição dos principais cientistas do Ocidente foi modificada quanto à vida e à forma durante os últimos dez anos.

Tomo como uma declaração sobre este tema da vida, publicada há alguns anos, o artigo escrito sobre Biologia na última edição da Enciclopédia Britânica, como todos os artigos nessa Enciclopédia, por um homem proeminente no mundo científico.

Ao tratar então da vida, o autor do artigo em questão afirma claramente que "uma massa de protoplasma vivo é simplesmente uma máquina molecular de grande complexidade, cujos resultados totais de funcionamento, ou seus fenômenos vitais, dependem, por um lado, de sua construção, e por outro, da energia que lhe é fornecida, e falar de 'vitalidade' como algo mais do que o nome de uma série de operações é como se falasse da 'relojoaria' de um relógio."

Ou seja, considerar a vida como um princípio comum existente em algum sentido, como algo mais do que uma mera sucessão de fenômenos em relação a um aparato particular da matéria, é tão tolo e irracional quanto se, olhando um relógio, devêssemos separar sua propriedade de funcionamento do mecanismo do relógio em si. Adota-se assim uma visão puramente mecânica da natureza, e considera-se que os processos vitais se devem ao equilíbrio instável do protoplasma; a série desses processos vitais se produz meramente por mudanças mecânicas e químicas, sendo assim mecânicas em seu caráter as ações chamadas vitais.

Mas na última reunião da Associação Britânica, o Presidente da Seção Química — tendo sido a química a própria ciência que conduziu o mundo científico ao materialismo a esse respeito — adotou um ponto de vista totalmente diferente, um ponto que leva a questão a uma perspectiva mais ampla, em linha com o pensamento antigo, e que inicia as investigações da ciência ocidental por um caminho no qual é provável que se encontrem os resultados mais frutíferos.

O Dr. Japp, o Presidente dessa Seção, compara a ação da vida com a ação de um operador que está trabalhando deliberadamente com um propósito, usando o conhecimento e a vontade para alcançar um resultado definido.

"O operador", diz ele, "exerce um poder de guia que é similar, (94) em seus resultados, ao do organismo vivo", e, passando a explicar em uma linguagem muito técnica o terreno em que se baseia essa visão, ele conclui dizendo: "Toda explicação puramente mecânica do fenômeno deve fracassar necessariamente.

Não vejo escapatória para a conclusão de que, no momento em que a vida surgiu pela primeira vez, entrou em jogo uma força diretiva, uma força precisamente do mesmo caráter daquela que permite a vida" do operador inteligente, pelo exercício de sua vontade, para selecionar um cristalizado em antiomorfo e rejeitar seu oposto assimétrico." Essa é a declaração: que com o surgimento da vida há um surgimento da consciência que exerce uma força diretiva na natureza, como vemos que exerce uma força diretiva na escolha exercida pelos homens.

Duas declarações uma ao lado da outra, observe a inversão total da atitude, e então poderá medir até certo ponto a mudança que se produziu no pensamento ocidental: o reconhecimento da vida como idêntica à consciência, uma posição que sempre foi tomada na vetusta Ciência do Oriente.

Agora permitam-me, antes de entrar em detalhes, sugerir-lhes o caminho que devemos seguir.

Da Existência Una, esse Uno sem segundo, surge, como vimos em nosso primeiro estudo: Íshvara, Deus em Seu aspecto criador e manifestado, Íshvara revestido de (95) Mâyâ, a partir da qual se vai construir um novo universo.

Três vezes o encontramos em Sua manifestação, três vezes no aspecto que mostrou; de modo que uma Trimûrti, ou Trindade, é o aspecto para este universo do Deus manifestado; Sua obra mostrará esse caráter tríplice, e a evolução da vida é tríplice, seja que a estudemos na natureza ou no homem.

Sei o pensamento que surge em muitos de vós, acostumados às amplas declarações na literatura oriental.

Pensais na construção, na manutenção e no desaparecimento de um universo.

Perfeita, dizeis, é a Existência Única, infinita, imutável; perfeito ao final é o universo, como perfeito ao princípio; por que então essa longa evolução da vida com todas as suas lutas, com todas as suas imperfeições foi transcendendo paulatina e lentamente.

Por que do perfeito há de sair o imperfeito? Por que deveria ser treinado na perfeição e depois retornar a essa perfeição de onde veio? Essa pergunta se baseia em um mal-entendido fundamental que é necessário corrigir; um mal-entendido que nunca poderia ter surgido entre vocês se as Escrituras tivessem sido lidas à luz da consciência desenvolvida pelo Yoga, e se o esboço geral que se apresenta tivesse sido seguido cuidadosamente no pensamento para que suas etapas pudessem ser marcadas.

Recordareis como está escrito no Chhândhogyopanishad (96) que o Uno quis multiplicar-se; e no momento em que captardes a ideia da multiplicação, se pensardes no que ela significa em vez de simplesmente repetir a palavra, vos dareis conta de que a multiplicação necessariamente deve significar divisão e, portanto, limitação, e que a limitação necessariamente implica imperfeição.

Mas tendo ido tão longe, teríeis procedido a perguntar: Com que palavras se descreve o universo e que ideia se esconde debaixo das palavras? E encontrareis que quando se fala de Deus como um Fogo, não se fala do universo como um Fogo, mas como uma chispa, e as vidas dos homens se descrevem como milhões de chispas que provêm do Fogo ilimitado.

Não só se usa a palavra "chispa", mostrando-vos a limitação que vem com a manifestação, dando-vos a ideia de que a chispa, alimentada pelo combustível adequado, deve desenvolver-se à semelhança da Chama de onde veio; mas como a chispa é da mesma natureza que a chama, assim se nos diz "Tu és Isso", o Si mesmo no homem é idêntico em natureza ao Si mesmo que lhe deu nascimento.

Recordareis outra palavra que se usa constantemente para descrever o universo como um todo, e também as partes que o compõem: a palavra germe ou semente.

Permiti-me pedir-vos que recorrais ao Bhagavad Gîtâ, tão familiar para todos os estudantes entre vós, e que escuteis por um momento as palavras escolhidas por Shrî Kṛiṣhṇa (97) quando deseja transmitir a ideia da natureza do universo e sua relação com o Supremo. O que ele diz?

mama yonir Mahad Brahma Tasmin garbham dadâmyaham.

sambhava sarva bhûtânâm tato bhavati Bharata.

"Coloco o germe no útero de Mahad Brahma". O que implicam estas palavras? Porque tudo gira em torno da nossa compreensão dessa palavra "germe". Mahad Brahma é a matéria do universo, vivificada por Brahman em Seu terceiro aspecto, o que os teósofos chamam de Terceiro Logos, do qual no Trimûrti se fala como Brahmâ.

Olhando para Brahman como o Uno, Mahad Brahma é o terceiro aspecto de Sua revelação, que vivifica e atomiza a matéria do universo, o útero da semente da Vida Eterna.

Nisso, trazido à manifestação por Brahmâ, ou o Terceiro Logos, o Segundo, o Pai gerador, Vishnu, coloca esse germe de vida para que nele possa se desenvolver; não Ele Mesmo em todo o poder de Sua Divindade, não Ele Mesmo na força de Seus poderes desdobrados, mas a semente de Sua vida, capaz de evoluir, contendo tudo dentro de si potencialmente, mas não mostrando nada em manifestação no começo do universo.

Certo, o filho é o pai revivido; certo, o filho é o mesmo que o pai.

No entanto, a vida (98) que o pai dá é a semente que contém o poder do desenvolvimento, e o universo não é mais do que a semente da Divindade, com todos os poderes envolvidos nela, e capaz por sua evolução de se tornar a imagem do Supremo: nada menos, todo poder é germinal, não desenvolvido, potencial, não atual; somente no final essa semente, desenvolvida até se tornar um homem perfeito, mostrará a imagem de seu Pai gerador, e dará um novo Íshvara ao futuro a partir do qual mais universos podem evoluir.

Essa é a resposta à pergunta: Por que esta longa evolução? É esta evolução que devemos rastrear desde o germe até a vida perfeita, dada como germe para crescer em direção a Deus.

Olhemos primeiro para a matéria na qual esta vida há de ser revestida, não em detalhe, isso é o trabalho de amanhã, mas quanto ao princípio envolvido na evolução da matéria através da qual a vida há de se expressar.

Ouvimos no primeiro dia sobre os tattvas.

Descobrimos que eram modificações de Prakriti, a matéria primária, que surgiram uma após a outra à medida que as regiões do universo eram construídas.

Tudo o que precisamos para nosso propósito desta manhã é lembrar que cinco deles estão relacionados com a evolução presente, que o mais elevado deles é o A'kâsha no sentido mais elevado do termo, depois Vâyu, depois Agni, depois Apas, depois Prithivî; todos estes são cósmicos e representam vastos planos no universo, mas têm suas correspondências no globo físico: éter, ar, fogo, água, terra, sendo estes apenas os reflexos em miniatura de seus grandes protótipos no sistema em geral.

A única coisa que precisamos lembrar esta manhã com respeito à matéria é que todos eles são animados pela vida do terceiro aspecto de Deus.

Aqui há um ponto em que podemos fazer uma pausa por um momento e olhar para outras religiões, e encontraremos que todas nos dizem exatamente a mesma coisa.

Não apenas encontramos no hinduísmo, em um livro como o Vishnu Purâna, que a criação divina foi de Mahat, a terceira manifestação, que esses grandes tattvas evoluíram mediante modificações do princípio de individualidade que é a característica desse aspecto; mas se voltarmos aos ensinamentos hebraicos, encontraremos que se afirma claramente que o "Espírito de Deus", o terceiro aspecto, ou Sabedoria, se movia sobre a face das águas.

Traduzindo o símbolo da água, temos matéria; assim é usado em todas as grandes escrituras religiosas, e quando se diz que o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas, temos a imagem de uma vida inquietante, imersa e impregnando o oceano de matéria primigênia, dando-lhe a vida que lhe permitirá servir de matriz para uma vida superior; a energia divina que assim vivifica a matéria procede da terceira Pessoa da Trindade cristã (100). Essa declaração hebraica domina toda a cristandade, porquanto as Igrejas cristãs tomam a parte mais antiga de suas escrituras das mãos do povo hebreu; e ao citar isso, não o estou citando apenas como uma autoridade dos hebreus, mas inclui a autoridade de toda a cristandade, sujeita por esse ensinamento hebraico.

Poderia mostrar-lhes, se o tempo permitisse, que outros grandes Mestres falaram no mesmo sentido; o resultado é que a matéria na qual terá lugar a evolução, da qual se formará nosso mundo de organismos, incluindo nossos próprios corpos, essa matéria está impregnada da vida divina, e o aspecto da vida divina que a impregna é o da terceira manifestação de Deus.

Essa é a razão fundamental pela qual Brahmâ já não é adorado.

Por isso não se erguem templos para Ele e por isso os adoradores não se aglomeram em Seus santuários.

Sua obra foi dominante nas primeiras etapas do universo, mas agora está eclipsada pela obra de outro aspecto do poderoso Deus, Vishnu como Preservador, Sustentador e Organizador.

Ele é a vida que está ativa em todos os organismos; e tendo sido dada e parcialmente desenvolvida a vida que anima os átomos da matéria, o aspecto contínuo dessa obra está oculto na etapa atual do universo; a principal evolução da vida que está ocorrendo agora (101) é realizada e dirigida por outros aspectos de Deus.

Às vezes, na literatura teosófica, fala-se dessa vivificação e acumulação de matéria como obra da primeira grande onda de vida no sistema solar; como uma onda que avança, assim avança a vida de Deus para a edificação dos átomos dos quais o sistema deve ser composto.

O ponto crítico é este: que a vida é velada uma e outra vez em uma involução quíntupla; encontramos que se diz que Prâna se divide em cinco partes, porque cinco são os tipos de átomos, cinco são as grandes divisões dos materiais, e em cada tipo sucessivo, o tipo anterior o impregna e o encerra, como encontramos que podíamos ler no Vishnu Purâna, que trata da construção dos tattvas.

(Recordar-se-á que os tipos são realmente sete, mas que dois estão ocultos.) Um resultado importante provém disso, que tratarei com mais detalhe amanhã, que a forma, ao estar construída a partir da matéria que contém dentro de si, implicava a vida oculta—tem o poder de se desdobrar até a mais alta possibilidade da vida assim oculta.

Invólucro após invólucro é feito para que invólucro após invólucro possam entrar em atividade como um veículo do Ser, e esse invólucro quíntuplo para o Ser humano é forjado a fim de que possa ter um veículo capaz de responder a cada vibração que estabelece ou que recebe.

À medida que as vibrações se tornam mais e mais sutis em seu caráter, um invólucro após outro se torna ativo e receptivo, e permite que a vida funcione externamente por meio do invólucro.

Voltemos, no entanto, porque isso se resolverá completamente amanhã, à próxima grande onda de vida que nos concerne; é a vida do segundo aspecto da Deidade, da qual no hinduísmo se fala como a vida de Vishnu, no cristianismo se fala da vida do Filho de Deus por quem todas as coisas foram feitas.

À medida que essa vida se derrama no universo preparado para recebê-la, à medida que essa vida começa a juntar a matéria que, vivificada pelo primeiro derramamento, agora está pronta para responder às vibrações da vida que organiza e sustenta, são enviadas vibrações por esta Vida Divina às regiões superiores do universo, começando a tarefa de unir a matéria em formas.

As primeiras etapas dessas são os protótipos do que será em evolução, não formas das quais falamos no mundo inferior, objetos concretos que podem dar origem a ideias concretas, mas aquilo que vagamente estamos tentando alcançar no mundo hoje, quando abstraímos de uma grande classe de objetos concretos sua qualidade unificadora, sua característica comum, e formulamos isso separado dos próprios objetos. (103) Às vezes tomei o triângulo como a imagem mais simples que o pensamento pode formar.

Pode haver triângulos de qualquer tamanho, pode haver triângulos de quase qualquer forma, desde que se usem apenas três linhas e essas linhas sejam linhas retas sem dobras.

Qual é a característica governante do triângulo? Que tem três ângulos, formados pela união dos lados que os encerram, devem ser iguais a dois ângulos retos.

Suponhamos agora que você tenha o poder do cérebro, o poder da abstração, para tomar dez, vinte ou trinta triângulos concretos e mantê-los na mente como se os estivesse olhando em forma externa, para criar suas imagens mentais de modo que cada forma esteja presente em sua mente, dirigindo sua atenção a todos eles ao mesmo tempo, então—se desses muitos objetos concretos que têm as propriedades particulares em comum das três retas que encerram e a soma dos três ângulos que somam dois ângulos retos: se você puder extrair a ideia dessa propriedade comum, separada de cada triângulo concreto, e transformá-la em um objeto na consciência, então você terá se elevado do concreto ao abstrato e terá alguma ideia do que significa um arquétipo no mundo superior.

As primeiras ações da Divindade ao desenvolver um sistema são desta natureza; Gera certos tipos ou arquétipos, e pela subdivisão e multiplicação destes se forma todo o universo de objetos concretos; cada um deles é capaz de gerar inúmeras formas que reproduzem sua própria característica em meio a infinitas diversidades de propriedades subsidiárias.

Não deixa de ser interessante que alguns de nossos cientistas tenham tentado encontrar a unidade em meio à diversidade e descobrir os tipos do reino animal em meio às inúmeras diversidades das formas animais separadas.

Um dos mais famosos desses homens, Sir Richard Owen, tentou formular um arquétipo que deveria representar todas as características fundamentais dos vertebrados, como nenhum vertebrado em particular, mas mostrando as qualidades presentes de cada vertebrado; ele o elaborou a partir de um estudo dos vertebrados, deixando de lado as características nas quais eles se diferenciam e sintetizando em uma única forma as qualidades que todos possuem.

O processo inverso é o que realmente ocorreu; o arquétipo que surgiu da Mente Divina gerou no mundo da matéria uma miríade de tipos diferentes, em cada um dos quais se expressa.

Esse lampejo de genialidade que iluminou a mente do cientista moderno é interessante como um raio a partir da concepção da ação criadora dada em nossa literatura sagrada; e encontrareis, se estudardes com cuidado, que as formas mais antigas não são objetos concretos, mas poderes gerativos, e que estes, que procedem de Deus, constituem modelos para os tipos futuros, estando cada tipo relacionado ao seu antetipo, cada objeto concreto ao seu antetipo, sua ideia abstrata.

Assim também ensinaram os gregos, Pitágoras e Sócrates e Platão; assim também ensinaram muitos dos hebreus, os doutores da Cabala; e tanto o filósofo grego quanto o cabalista hebreu declararam que o mundo visível dos objetos nunca poderia ter chegado a existir se não o tivesse precedido o mundo invisível das Ideias, de modo que os objetos repetiam em multidão o que uma Ideia apresentava em unidade.

Essa Ideia que surge assim de Deus e atrai para si formas na matéria sutil, produz os tipos de formas que se desenvolverão gradualmente na evolução; e aqueles de vocês que tenham estudado a Doutrina Secreta de Madame Blavatsky podem recordar que o mundo arquetípico é mencionado ali como o primeiro que se cria, e como aquele do qual depende toda a evolução dos mundos mais densos.

É feito do A'kâsha que contém dentro de si mesmo a possibilidade de todas as formas, como nos é dito, e essas Ideias são extraídas e reproduzidas com maior detalhe pelo Construtor nas correspondências A'kâshicas de Agni.

A vida se desenvolve pelas modificações na consciência que produz Íshvara; a modificação na consciência de Íshvara que precede o moldar da matéria.

À medida que essa onda de vida desce a uma matéria cada vez mais densa, reúne mais e mais formas separadas, que se tornam mais densas em sua natureza, até que finalmente, reino após reino, chega às formas minerais, onde a vida está mais restringida em suas operações, onde a consciência é mais limitada em seu alcance.

Este é o processo de involução da vida na matéria, o arco descendente.

Deste ponto mais baixo a vida ascende, revelando mais e mais de seus poderes, e aqui começa a "evolução" ocidental ordinária, ignorando o processo anterior.

Como essa vida e consciência Divinas, na primeira etapa ascendente de evolução, desenvolveram na vida germinal o poder de responder? A vida dentro da pedra tem a capacidade de responder, mas de maneira muito limitada, em parte devido à sua natureza germinal, em parte devido à rigidez de seu veículo circundante; portanto, a vida melancólica de Vishnu, que nutre esse germe, o estimula imediatamente mediante impactos externos e modifica gradualmente a rigidez para tornar possível o progresso.

Muito, muito tempo permanece a vida incrustada nesse material rígido, trabalhando de dentro para fora, como funciona toda vida, moldando e suavizando assim a rigidez, e dando lentamente à forma mais plasticidade em resposta; podemos resumir a totalidade do funcionamento da vida, como (107) a recepção de vibrações da matéria exterior e a resposta das vibrações de si mesma interiormente.

Observe nas primeiras etapas quão tremendos são os impactos; se vos voltardes ao tempo em que o mundo não conhecia a humanidade, quão gigantescas são as operações da natureza mostrando-se em suas formas minerais; terremotos, erupções, trituração e trituração de materiais, desintegração e reconstrução, tudo na escala mais poderosa e gigantesca; debaixo de tudo isso, a vida, tentando tornar a matéria mais plástica e capaz de responder mais prontamente; e na medida em que há vida, há consciência, isto é, o poder de responder, esse poder se desenvolve dentro dela, estimulado pela vida melancólica de Íshvara. Ele, que mora no interior e envolve e penetra todos os objetos, faz com que a semente da vida se estenda e cresça por seu calor nutritivo, para que possa se tornar finalmente um centro independente.

Vemos que a vida dentro da pedra começa a vibrar mais ativamente à medida que esses tremendos golpes a atingem do exterior; e massa se arroja contra massa, e montanha sobre montanha se empilha, até que por fim esses materiais minerais adquirem maior poder de transmissão de impulsos à vida interior; o impulso chega com mais força devido à menor oposição da forma, a vida responde mais ativamente e começa a evoluir, desenvolvendo mais definidamente o poder de resposta.

À medida que esse processo se repete uma e outra vez, a vida dentro dos minerais vibra com uma rapidez cada vez maior, e a matéria cede a ela com uma prontidão cada vez maior, até que se alcança uma etapa de plasticidade na qual se podem trazer os começos do mundo vegetal, em existência entre o mineral e a planta nos estágios mais baixos, a ciência não pode traçar uma linha divisória definida.

Tão geral é essa ausência de linhas divisorias na natureza que se reconheceu um reino separado que inclui tipos inferiores tanto de vegetais quanto de animais, e entre os reinos vegetal e mineral se reconhece uma classe na qual o cristal rígido que pertence ao reino mineral se tornou o cristaloide plástico que pertence ao vegetal; mantendo o contorno da forma mineral, mas mostrando a plasticidade do vegetal, e assim cedendo muito mais facilmente às influências moldadoras da vida interior.

A vida assim encerrada em matéria mais plástica recebe vibrações do exterior com maior facilidade e responde com mais força, até que, na ascensão que começa a realizar, acrescenta os primeiros princípios de um poder de consciência que no mineral não estava presente.

Chamamo-lo sensação: o poder de sentir prazer e dor, o poder de responder ao impacto exterior com um sentimento dentro da vida.

Depois que a vida no mineral tenha desenvolvido o poder de resposta, então (109) a etapa seguinte na evolução é que a resposta assume as sensações de prazer e dor, aparecendo como algo dentro da vida que responde separadamente ao impacto harmonioso ou discordante do exterior.

À medida que a vida desenvolve esse poder de sensação, o progresso se torna mais rápido.

O reino animal se constrói gradualmente, e o poder da sensação é a grande característica que se desenvolve através desse reino, até que as formas animais se tenham tornado plásticas através de muitas eras pelo impulso da vida, e a vida tenha formado e fortalecido o poder da vida respondendo pelo prazer e pela dor às vibrações harmoniosas e discordantes — a etapa seguinte está pronta para ser tomada, a construção do veículo para o homem.

Esse corpo exterior no qual o homem há de morar se parece muito, em sua natureza, em algumas de suas características fundamentais, com os corpos animais que a vida havia vivificado antes de o homem ser chamado à existência.

" Do pó da terra", diz a escritura hebraica, Deus formou o corpo do homem, uma forma simbólica de dizer que do material que havia feito as formas mais baixas de vida se faria também a camada exterior dessa vasilha, na qual se derramaria um novo torrente de vida Divina, formando o Ser humano, ou Espírito.

Aprendemos, quando estudamos ocultismo, que essa terceira efusão (110) de vida Divina não provém nem do Terceiro, nem do Segundo, mas do Primeiro Logos, por isso chamado Mahâdeva, o Grande Deus, o Supremo.

D'Ele vem o terceiro impulso que é para completar a evolução, a terceira efusão de vida, que só alcança sua evolução final nesta era por métodos de Yoga; portanto, muitas vezes é representado como o grande Yogî, o grande Gurû, sob cujas instruções devem ser levadas a cabo as últimas etapas da evolução.

Quando essa força vital desce e é enviada ao Eu humano para ocupar seu tabernáculo, repete-se novamente o antigo processo, e apenas se dá o germe da vida mais elevada, e não a vida completa.

Ao redor há veículos que são capazes de responder, ao redor há veículos que têm o poder de se desenvolver mais alto, que já são capazes de enviar vibrações que despertam o sentimento na vida que encerram, e agora, envoltos pela vida de Vishnu, esse germe do Eu Divino começa a se mover e viver como homem.

No princípio, sai dela muito pouca resposta à vida que se transmite, muito pouca resposta ao que está fora; mas quais são as características desse Eu infantil, essa centelha do Fogo Eterno? Triplo em aspecto é a vida no homem, assim como é tripla na Divindade, e suas características são as mesmas: Sat, Chit, Ananda.

Falamos assim de Brahman, e (111) se estudarmos o Eu humano, encontraremos esses três aspectos presentes também nesse Eu humano; e o primeiro a se desenvolver no homem, como no Cosmos, é Chit, ou conhecimento.

Todas as primeiras etapas da evolução humana têm a ver com a evolução da Inteligência; é isso que nos preocupa agora, enquanto subimos essa poderosa escada.

Somos inteligência ou intelecto em evolução, e se rastrearmos suas etapas desde os primeiros germes, tal como aparecem nas raças primigênias da humanidade do nosso globo, e tal como foram fomentados nessas raças pelos Grandes Seres que vieram a nós como Mestres de outros mundos, encontraremos que o intelecto nascente no homem respondia muito levemente a qualquer coisa que lhe chegasse do exterior, e que no princípio todo esforço da inteligência era estimulado pelas incitações da natureza animal, pelo aguilhão do desejo, pelas paixões que pertencem à parte animal do homem.

Considere um selvagem.

Quando um selvagem está ativo? Somente quando algum desejo animal desperta dentro dele. Se tem fome, sim, então começará a pensar: "onde posso encontrar comida?" Se tem sede, perguntará: "onde encontrarei líquido?" Qualquer impulso animal que surja dentro dele, sua mente nascente se aplica a satisfazer; e o germe da mente é estimulado pelas incitações do desejo animal.

Nessa etapa, ele não distingue o bem do mal; (112) o bem e o mal para ele não têm existência; a fome e a sede, o desejo sexual e a necessidade de dormir são as coisas que compõem sua vida e que movem sua consciência nascente; estas apenas são suficientemente fortes para colocá-lo em atividade; ainda não pode iniciar a atividade desde dentro.

Mas à medida que estas agem sobre ele, vida após vida, nascimento após nascimento, século após século, em encarnações sucessivas dessa vida germinal, porém crescente, à medida que essas vibrações despertam continuamente a vida da inteligência, que é o terceiro aspecto do Si Mesmo, essas vibrações repetidas, uma e outra e outra vez mil vezes, por essa mesma repetição provocam uma tendência interna a repeti-la de novo sem um novo estímulo desde o exterior; e encontramos na etapa seguinte da evolução da inteligência, ainda no selvagem, que o selvagem não espera a fome para buscar comida, mas a memória da fome e a memória da comida são suficientes para enviá-lo para fora, antes que a fome o assalte, em busca do alimento que amanhã requererá para satisfazer as necessidades do corpo.

Mas que mudança há se a considerarmos, por menor que pareça.

O homem já não é estimulado por um impulso exterior proveniente da natureza animal; é estimulado por uma imagem mental, uma imagem conectada do estado doloroso do corpo (113) que deseja alimento e do alimento que é capaz de transformar esse estado em um de prazer; ou seja, agora é capaz de formar imagens mentais, e estas o estimulam à atividade.

Quão grande é a mudança! Nada menos que uma mudança do centro de consciência do animal para o humano, uma das mudanças mais significativas na evolução da vida.

Agora, pela primeira vez, não espera que o empurrem desde fora.

Começa a ação desde dentro, e o corpo obedece ao impulso que vem do centro, em vez do impacto que golpeia o centro desde fora.

Agora a evolução se torna mais rápida, porque à medida que essa grande mudança se realiza, uma das mudanças mais difíceis, o intelecto no homem começa a conhecer a si mesmo e a autoconsciência começa a surgir.

Reconhece-se a separação entre seu próprio centro, que pensa, e o das coisas exteriores que o fazem pensar; surgem o "eu" e o "não-eu", e o centro começa a tomar forma e a ser capaz de crescer.

Como continuará o crescimento? Por conflito.

Esta é a característica do intelecto.

Tem que fazer do "eu" um centro forte, um centro separado, do contrário, não é possível uma evolução maior.

Podes dizer que isto parece ir para baixo; mais ainda, é o germe de um novo centro de vida no qual a própria Divindade se desdobrará quando a evolução estiver completa.

Deve haver um centro de consciência claramente definido, (114) do contrário, como funcionará rumo à perfeição? E esse centro cresce pela luta.

Toda força provém da luta de um tipo ou de outro.

Se queres que teus braços se fortaleçam, não é bom que te deites num sofá e deixes que os músculos cresçam apenas com o alimento que lhes dás.

Eles querem mais que alimento, querem exercício; e é a lei de todo crescimento da forma que a vida deve ser atraída para a forma, pois somente então a forma pode expandir-se e tornar-se capaz de receber um maior impulso de vida; se os músculos hão de crescer, as células que os compõem devem ser estiradas mediante o exercício, e a vida deve fluir para a célula expandida; somente então ela se torna capaz de se multiplicar, de modo que pode haver muitas células onde antes havia apenas uma.

A diferença entre o homem fraco e o homem forte, o homem que é débil e o homem que é atlético, é a diferença provocada pelo exercício e pela luta, puxando contra a resistência, tomando um peso e fazendo-o girar e fazendo com que os músculos se tensionem contra o peso.

Essa é uma imagem da maneira como toda a vida está trabalhando para o desenvolvimento da forma; o impulso da vida conduz ao exercício da forma, o exercício a torna plástica e aumenta a forma, através da qual a vida pode assim fluir mais amplamente.

Isso é tão verdadeiro no mundo mental quanto no mundo físico (115); pois o mundo mental é também um mundo de fenômenos.

Não é o Uno; sua característica é a diversidade, sendo cada um por si mesmo, e considerando as demais coisas como separadas.

Conheço um objeto.

Como? Por suas diferenças com alguns outros objetos e suas semelhanças com outros; do contrário, não poderia conhecê-lo.

Não podes pensar na unidade até que tenhas visto a variedade; não podes reconhecer a semelhança até que tenhas visto a semelhança.

A característica da evolução intelectual é a discriminação das diferenças seguida do reconhecimento das semelhanças; assim o intelecto reconhece objeto após objeto, cada um deles por suas próprias marcas e características.

A análise precede a síntese.

As diferenças são vistas antes que se reconheça uma unidade subjacente.

À medida que essa inteligência se desenvolve, descobrimos que o reconhecimento do Eu e do Não-Eu dá origem a lutas em todo o mundo, tanto lutas sociais quanto lutas mentais.

Em toda civilização na qual o intelecto está se desenvolvendo desde seus primeiros estágios, deve haver luta externa para estimular a evolução interna; é uma etapa necessária, embora transitória, e não precisa nos angustiar, porque vemos seu fim, em um mundo guiado pelos Deuses.

Todas as etapas pelas quais uma nação passa são necessárias para seu crescimento, e não precisam ser condenadas simplesmente por serem limitadas e imperfeitas.

(116) Na política prática, a condenação é útil como estímulo, como um dos agentes para produzir as mudanças evolutivas, mas o filósofo deve compreender, e, compreendendo, não pode condenar.

A pior luta que possamos ver, a pobreza mais terrível, a miséria mais espantosa, a luta de homem contra homem e de nação contra nação, tudo isso está realizando o propósito divino e está nos conduzindo a uma unidade mais rica do que aquela que sem eles poderíamos alcançar.

Permitam-me tomar um exemplo que parece ser o mais desesperador de todos: o caso da guerra.

O que pode ser mais desumano do que a guerra, o que mais brutal e mais terrível, agitando as paixões mais furiosas do homem e tornando-o como uma besta selvagem em sua fúria? Sim, mas isso não é tudo.

Olhemos a vida dentro de um soldado que foi desenvolvida por essa terrível disciplina exterior.

O que é esse aprendizado da vida quando seus veículos se submergem na luta, no derramamento de sangue, na mutilação, na morte? É aprender lições que sem essa severa experiência não poderia aprender, sem a qual sua evolução se veria detida e não poderia continuar; é aprender que há algo maior que o corpo, algo maior que a existência física, algo mais elevado, mais nobre, mais premente que a proteção do veículo físico (117) contra lesões e inclusive contra a morte; e o soldado mais pobre que sai para a campanha, que atravessa dificuldade após dificuldade, que se encontra congelado pelo frio ou queimado pelo calor, que se submerge em um rio gelado ou se afana no deserto arenoso, que aprende a manter a disciplina e a submissão sob as dificuldades, que aprende a manter-se alegre na dificuldade, para que seus camaradas não se deprimam, que se comove, não pelo pensamento do corpo que sofre, mas pelo grande ideal da renome militar de seu regimento, e a segurança do país ao qual está servindo, que está aprendendo assim a sacrificar-se por um ideal, está desenvolvendo qualidades inestimáveis nas vidas vindouras.

Preciso dizer-te isto, que conheces o lugar do Kshattriya na evolução humana? Manu, ao descrever essas diferentes castas, demarcou alguma casta que não tivesse seu lugar na evolução da vida, que não tivesse algo a ensinar? Não se mantinha um homem no veículo Kshattriya até que aprendesse que a vida não dependia do corpo, que a vida havia de estar a serviço do ideal, a serviço da mãe pátria que o deu à luz, do rei que o governava, e que para ele representava, como deveria ser o rei para todo hindu, como um Avatâra de Deus? Aprendeu que quando aquele rei o chamou ao campo de batalha, teve que entregar seu corpo à mutilação (118) e à morte, porque a vida que estava nele reconhecia o serviço do ideal como evolução da vida real, e o corpo como uma mera vestimenta que se lança de lado quando o dever chama? Sem esse treinamento, nenhum Brâhmana poderia existir; nenhum homem poderia entrar na casta dos Brâhmana, salvo se tivesse passado por essa disciplina nas fileiras dos Kshattriya; porque até que aprendesse que a vida era tudo e a forma nada — e essa é a lição que a guerra ensina quando é compreendida corretamente — até que essa lição seja aprendida, não estará preparado para a evolução muito mais árdua da vida, que é dominar a lição da unidade sob a diversidade, do amor sob o antagonismo, de ser amigo de toda criatura e inimigo de nenhuma.

Quando a inteligência se desenvolveu, quando alcançou um ponto bastante elevado, os germes do próximo aspecto da Divindade começam a se manifestar no homem, e esse aspecto é Ananda, Alegria ou Bem-aventurança.

Mas, em que consiste realmente A’nanda? Está em reunir objetos separados e uni-los em um.

Essa é a essência da Bem-aventurança, que é o próprio núcleo e coração da próxima etapa da evolução.

Nos velhos tempos do hinduísmo, isso se chamava a vida do Brâhmana, quando o Brâhmana era realmente um Brâhmana e não tinha mais nascimentos diante de si na roda de nascimentos e mortes.

Em (119) a simbologia cristã se chama a etapa de Cristo, a da Filiação Divina, e encontrareis em uma grande oração de Jesus, chamado o Cristo, que ao orar por seus discípulos pediu que "eles sejam um em mim", em união entre si e consigo mesmo.

Existe uma unidade ainda maior, a unidade entre o Filho e o Pai, uma unidade de natureza, não uma união dos primeiros separados; mas antes que essa unidade possa ser alcançada, o homem deve ter realizado a união com seus irmãos os homens, deve ver a humanidade como unida, e não como separada; isto é, deve ter mudado seu centro de consciência, que responde aos impactos externos, dos veículos nos quais se desenvolveram o intelecto e os sentimentos, para a vida em si mesma, que é una e a mesma em todos.

Não deve mais pensar em si mesmo como separado, pois o "eu", o eu separado, agora deve ser transcendido, deve fundir-se no aspecto unificador da Divindade, o Vishnu ou o Cristo.

Isso deve desenvolver-se como a vida do homem, com toda a sua maravilhosa beleza e poder, com a sua força unificadora.

Portanto, Shrî Kṛiṣhṇa veio como um Avatâra a este mundo oriental para mostrar a vida do Amor; porque a vida de A’nanda, ou Bem-aventurança, é sempre a vida do Amor, e somente pelo Amor podemos desenvolvê-la dentro de nós mesmos.

O aspecto de Deus que é Bem-aventurança se mostra como Amor; e em palavra e em ação, em símile e em parábola, o (120) Amado e Amante do homem revelou esse aspecto Divino aos corações anelantes de seus Bhaktas.

Essa foi Sua obra especial, mostrar o poder do Amor de Deus; e somente à medida que isso se desenvolve dentro de nós, a vida pode assumir esse elevado desenvolvimento que une todos os seres no Uno Mesmo, que vê todas as vidas Nele. Agora, em evolução, o Eu se conhece a si mesmo como a Vida, e já não é enganado pela ignorância que o fez identificar-se com a Forma; é a vida que se realiza a si mesma como Vida.

Quando essa etapa é alcançada pela vida evolutiva, o homem que foi separado torna-se Humanidade, e é um dos Salvadores do mundo.

Não há nada à parte dele, nada separado dele. Ele permanece na Vida mesma, e derrama sua luz em todas as direções em qualquer Upâdhi, ou recipiente, que possa estar em necessidade dela; onde quer que haja necessidade ou clamor por sua ajuda, ali fluem seus poderes.

Assim como o sol brilha no céu e pode iluminar um milhão de casas, sendo a única condição para que seus raios entrem que as casas se abram à luz do sol, assim é o homem que se tornou o segundo aspecto da Divindade, naquele em quem se revela a perfeição da Filialidade Divina.

O homem, como Filho de Deus no Céu, está acima de todas as distinções que encontrais na Terra.

Envia seus raios aos corações que aguardam os homens, e a única condição necessária para sua entrada, o único que assegura sua vinda, é que seu irmão abra seu coração para recebê-lo.

Porque ele não entrará à força, só virá onde for bem-vindo.

Assim, esta grande vida de Deus se mostra agora no homem que se tornou o Salvador, o Filho, o Iniciado, como um profundo amor compassivo por todos.

Cada homem que alcança essa etapa é uma nova força para a elevação da humanidade.

Todo homem que desenvolve esse aspecto da vida é uma asa a mais com a qual elevar tudo para cima.

Se um homem é fraco, sua vida pode ir até ele para fortalecê-lo; se um homem está triste, sua vida pode ir até ele para alegrá-lo; se um homem é pecador, sua vida pode ir até ele para purificá-lo do pecado.

A todos os homens diz: "Onde quer que esteja um homem, ali o encontrarei, e ali o aceitarei". Isso é Shri Kṛiṣhṇa em manifestação, esse amor que brilha desde o aspecto bem-aventurado do Ser Humano.

Resta um passo, o último, de evolução para esta vida que se aperfeiçoa rapidamente.

Novamente tomo meu símbolo cristão e arrisco a citação: "Como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles sejam um em nós". O Filho se torna de fato o que sempre foi potencialmente, um com o Pai.

Entra no reino poderoso do Ser por Si Mesmo, onde Deus, na frase cristã, é (122) "tudo-em-tudo". Não deixe que as apresentações mais estreitas do cristianismo que aqui encontrarás te ceguem para estas identidades fundamentais do cristianismo mais profundo e mais espiritual com nossa própria fé antiga.

Separarão estas mesquinhez, ou mesmo as divergências externas, aqueles a quem o Espírito vivente quer unir? Aprendemos, à medida que estudamos as Escrituras hindus, que o homem, depois de ter alcançado a segunda etapa, eleva-se pelo Yoga, até que alcança a última, e torna-se um com a própria Deidade em pleno poder do Ser eterno.

Foi porque seu próprio Svâmi T. Subba Rao conhecia esta verdade oculta, que muitos ignoram, que falou, como mencionei antes, dos inumeráveis Centros, ou Logoi, no Uno, cada um dos quais poderia ser o começo de um novo universo, de uma nova efusão de vida.

A construção desses Centros é um propósito da Vida-evolução.

A construção deles, etapa por etapa, se faz à medida que a vida passa de uma forma a outra; e final não há nenhum na série infinita do futuro.

O que essa vida nos reserva não podemos dizer; como devemos imaginar essa terra distante, esses confins longínquos? Mas isto sabemos: que nenhuma vontade do Eterno é jamais frustrada, nenhum propósito do Eterno carece de seu fruto ou perde sua meta; e se nossos olhos falham no deslumbramento da luz na qual vemos nossa unidade com o Pai Eterno, essa unidade que transcende (123) nosso sonho, quando nos sabemos um com Ele, é suficiente que ao final a evolução de toda vida conduz a esse esplendor inimaginável, conhecido somente pelo próprio Íshvara, que derrama Sua vida para que nós também possamos conhecê-Lo.

E Mahâdeva voltará a Ele com todos os centros que Sua vida trouxe à existência, com todas as novas vidas e alegrias que criou Seu aprisionamento em Seu universo.

Isso é suficiente para nos dar esperança; esperança, digo? é uma palavra demasiado fraca: o gozo inexprimível e a certeza que se fundam na própria Vida de Deus; acaso não é Ele a Verdade, o Fundamento do Universo? E quando entrarmos em Sat conheceremos o futuro como vemos o passado, porque seremos não apenas imortais, mas Eternos.

QUARTA CONFERÊNCIA.

EVOLUÇÃO DA FORMA.

Irmãos meus, agora devemos concentrar nossa atenção no lado fenomênico do universo, isto é, nas variadas aparências que nos rodeiam, sejam essas aparências visíveis aos olhos físicos ou não; porque devemos lembrar que o princípio da forma se encontra em cada etapa do universo manifestado, e que quando se usa a frase "o mundo sem forma", a palavra "sem forma" só é verdadeira em relação aos mundos abaixo daquele do qual assim se fala.

Todos os mundos superiores são "sem forma" considerados de baixo, isto é, considerados pelos órgãos de percepção que estão preparados para se exercitar no mundo inferior; mas se uma pessoa desenvolveu a capacidade de responder às vibrações em qualquer mundo dado de manifestação, então esse mundo para ele é um mundo de forma e não sem forma.

Em toda parte a manifestação implica forma, por mais sutil que seja a matéria que a compõe; e recordarão que se diz no Vishnu Purâna que a única característica da matéria que está sempre (125) presente é a extensão, isto é, a capacidade de tomar forma, de ser moldada de uma maneira definida.

Agora, antes de abordar os detalhes da evolução, há um ou dois grandes princípios que quero pedir que tenham em conta; porque nunca poderemos compreender a complexidade do detalhe, se o tomarmos como uma série de detalhes isolados; precisamos classificá-los sob certos princípios fundamentais e, então, estando claros esses princípios na mente, podemos facilmente, por assim dizer, empacotar cada detalhe em seu devido compartimento em nosso pensamento.

Não os incomodarei de modo algum esta manhã com aquela tripla divisão da vida em evolução da qual tratamos ontem.

Podemos, para nosso trabalho agora, tratar a vida como uma unidade, falando da Vida Divina como Íshvara, e do reflexo dessa vida no homem como o Ser.

Manteremos esses dois termos para evitar confusões: Íshvara como a Vida Divina que é a fonte da evolução; o Ser como a vida humana que está evoluindo gradualmente.

E precisamos desses dois nomes distintivos, sem entrar em nenhuma das subdivisões que tratamos ontem em relação à vida, para que possamos ver como as formas se configuram e a que princípio, se me é permitido dizer, vamos nos referir às modificações especiais.

O próximo passo que devemos perceber são as respectivas funções dessas fontes de vida; uma operando (126) através de todo o cosmos, e portanto chegando ao homem como parte desse cosmos, a outra operando no homem como indivíduo através das primeiras etapas e transcendendo a individualidade ao final.

A grande vida de Íshvara, ao fluir para fora, construindo o universo das formas, expressa-se, como vimos, por uma certa série de vibrações, e cada modificação na forma é o resultado de um impulso que vem em forma de vibrações da vida animadora.

Agora, o ponto que mais nos chama a atenção nesta manifestação de Íshvara, à medida que a estudamos, é a indizível paciência da mesma.

Somos impacientes pelos resultados, Ele nunca.

Somos impacientes pelos resultados porque, limitados pelo tempo, anelamos ver o resultado de nossa ação; Ele, sendo o eterno, é indescritivelmente paciente, fixado na perfeição e indiferente ao tempo que essa perfeição possa levar para evoluir.

Para a evolução das formas, essa paciência é absolutamente necessária; quando nos pomos a pensar, vemos que qualquer impaciência na evolução das formas significaria a ruptura demasiado rápida das formas.

A forma é comparativamente rígida em comparação com a vida.

Se a vida vibra rápido demais para a forma que está evoluindo, a forma se romperá sob o estresse dessas vibrações.

Permite-me dar-te uma ilustração muito comum para mostrar o que quero dizer; um tubo de vidro, ou o vidro de uma lâmpada comum, se preferires, tem uma certa nota (127) com a qual vibra; e se essa nota for cantada perto do vidro da lâmpada, ouvirás o som da nota independentemente, vindo do vidro da lâmpada, como se o vidro da lâmpada estivesse cantando; o copo vibrou em resposta às vibrações do som que lhe foi cantado, tendo em si a capacidade dessa vibração, e assim reproduz a nota.

Se aumentares a força dessa nota, se continuares vibração após vibração, além do ponto em que o copo é capaz de responder, teu copo estremecerá e se quebrará em pedaços, estremecido pela força do esforço de responder a vibrações além do seu limite de rigidez.

Tomo isso apenas como uma ilustração, como um quadro; é verdade em todo mundo de forma; e se Íshvara enviasse vibrações rápidas demais, sutis demais para que a forma que Ele está animando responda, essa forma se quebraria em pedaços, e sua evolução se deteria; a natureza teria que começar de novo a construir uma forma similar para voltar a alcançar o ponto a que já havia chegado.

Essa paciência de Íshvara é a primeira coisa que nos chama a atenção quando estudamos a evolução das formas.

Como são lentas as mudanças, como são graduais as modificações, como milhares de formas sucessivas são trabalhadas, como são quase imperceptíveis as mudanças em sua minúcia, embora tão grandes quando as olhamos em massa; esse é um grande princípio a ter em conta.

(128)

Outro grande princípio é a ação dupla e paralela de Íshvara e do Eu em evolução.

Íshvara está presente no Ser do homem que se forma dentro d'Ele. Todo impulso evolutivo nas etapas mais precoces provém diretamente da vida de Íshvara, e à medida que Ele molda a forma exterior, gradualmente fortalece o centro que está construindo em seu interior.

Seu objetivo é fazer desse centro a imagem de Si mesmo, autossuficiente; mas são necessários enormes lapsos de tempo para a construção; ao dar forma às formas, constrói o centro; e à medida que Ele constrói esse centro, e se torna cada vez mais ativo, respondendo às vibrações que Ele lhe transmite desde o mundo exterior, começa a tomar uma pequena ação própria e a enviar vibrações, por assim dizer, por conta própria.

À medida que essa dupla ação continua dentro da forma, cada vez mais esse centro evolutivo começa a controlar a forma dentro da qual se desenvolve.

À medida que esse poder de controle se desenvolve e aumenta, Ele retira cada vez mais Sua energia diretiva como Íshvara; a energia extraída d'Ele agora começa a trabalhar quase independentemente no centro separado que Ele vem construindo, até que finalmente esse centro se reflete a Si mesmo e é capaz de existir por si mesmo pela mesma vida que extraiu d'Ele. Se essa concepção é um tanto abstrata, deixe-me apresentá-la novamente (129) de forma concreta.

Há um símbolo que os sábios usaram repetidas vezes para expressar essa maravilha da vida melancólica de Íshvara fazendo uma imagem de Si mesmo e dando a essa imagem a possibilidade de uma vida independente.

É o símbolo da mãe e do filho dentro do útero.

À medida que a vida da mãe passa para o filho que está sendo construído dentro dela, transmitindo a essa nova forma todo o alimento necessário para sua vida em crescimento, toda a vida do filho depende da mãe e das correntes de vida que a nutrem e que são extraídas da própria vida da mãe.

A construção continua, e continua, e continua, até que o novo centro de vida se tenha fortalecido, mas não até que esse centro possa se manter unido em meio às vibrações do universo exterior, é a nova forma com sua vida animadora enviada sobre seu próprio corpo em um curso independente.

Assim, a inquietante vida materna de Íshvara envolve os filhos de Seu amor, e assim Ele os nutre, construindo-os dentro de Si mesmo à medida que as eras passam, até que sejam capazes de manter seus próprios centros na vida ilimitada do Uno, o Supremo.

Esse é outro princípio que você tem que lembrar ao longo dos detalhes da evolução da forma, outro que tem duas divisões e então a declaração de nossos princípios fundamentais estará suficientemente (130) completa.

Há três aspectos, lembremo-nos, que o Eu em evolução tem que desdobrar.

Devemos acrescentar a isso uma compreensão da natureza desses aspectos, quando se exteriorizam; porque ontem, por falta de tempo, não examinamos com bastante precisão a característica marca externa de cada aspecto da vida.

Como esses aspectos modificam a evolução da forma, a forma não pode ser entendida a menos que se compreendam suas relações com os aspectos da vida.

Temos, como sabemos, que mostrar o Conhecimento, a Bem-aventurança e o Ser.

Estes aparecerão como poderes no mundo da forma à medida que a evolução alcance suas últimas etapas, e a forma poderá expressar esses poderes da vida em evolução.

O conhecimento, manifestando-se através da forma, tem como poder a Inteligência; A bem-aventurança, manifestada através da forma, tem como poder o Amor; O Ser, manifestado através da forma, tem como poder a Existência; de modo que se pode dizer que os aspectos fundamentais se manifestam separadamente como os poderes da inteligência, do amor, da existência.

Dito de outro modo, a natureza da inteligência é o conhecimento, a natureza do amor é a bem-aventurança, a natureza da existência é o ser.

A inteligência, o amor e a existência de nossos mundos são o Conhecimento manifestado, a Bem-aventurança manifestada e o Ser do Ser manifestado.

Esse é o aspecto exterior do Si mesmo, assim como o outro é o aspecto interior, e essas naturezas características buscam sua expressão na forma.

Essa expressão é buscada cósmica e individualmente, tanto pela vida de Íshvara quanto pela vida do Ser.

Cósmicamente formam os planos do universo manifestado, os cinco planos nos quais estamos evoluindo.

Aquilo que se manifesta como existência, o poder do Ser, tem como forma o Akâsha do reino superior; o que se manifesta como amor, o poder da Bem-aventurança, tem como forma de matéria Vâyu; o que se manifesta como inteligência, o poder do Conhecimento, tem como material a Agni.

Estas são as três manifestações fundamentais na forma.

Os outros dois são reflexos: Aquilo que é amor, refletindo-se na forma inferior da matéria — a matéria mais densa de Varuna — toma o aspecto do desejo e da paixão, e se torna kâma.

Aquilo que é existência, refletindo-se na forma ainda mais grosseira de Prithivî, mostra o que chamamos de realidade objetiva.

Vê como os planos se correspondem, um com o outro.

Tente fazer uma imagem de uma montanha refletida em um lago; e se você tiver isso em sua mente, seguirá exatamente a forma como a reflexão se realiza.

Não há reflexo da inteligência porque ela é a qualidade central; a inteligência é o centro dos cinco, dois acima e dois abaixo.

É a região central, o eixo sobre o qual o conjunto deve girar.

Se você olhar para cima, para as regiões superiores, encontramos que o amor e a existência se manifestam como os poderes da Bem-aventurança e do Ser.

Isso é, por assim dizer, a montanha.

Agora observe seu reflexo no lago; a parte média da montanha se reflete até a metade na água.

A margem é a linha divisória entre objeto e imagem, e representa a inteligência; abaixo, na metade, virá o reflexo do amor mostrando-se como emoção e desejo; depois vemos o pico mais alto refletido na profundidade mais profunda do lago, a existência acima, o poder do Ser real, refletido abaixo no plano da matéria física como aquela existência ilusória que o homem chama de real.

Tente manter essa imagem, pois o princípio da reflexão de cima para baixo é uma das chaves para compreender tanto o que está acima quanto o que está abaixo.

Isso ajuda você a ver por que o amor emocional passa à devoção, e como, ao passar da emoção ao amor superior que é a devoção, ele passa do plano kámico ao búdico, onde a bem-aventurança é a característica distintiva; e compreendereis por que a ação, a mais ilusória das coisas, tem para nós o sentido da realidade.

Ela nos dá esse sentido peculiarmente definido de realidade porque é o reflexo do real, de cuja existência é a forma inferior.

Agora, esses são os princípios.

Tratemos de colocá-los em prática em nosso estudo evolutivo; porque se vos mantiverdes firmes nos princípios, o estudo dos detalhes, das formas, vos parecerá menos confuso, menos complexo e menos difícil; não vos perdereis entre as árvores, uma vez que tenhais olhado para a floresta como um todo; essa é uma comparação que certa vez ouvi do professor Huxley, como ilustrador de princípios e detalhes, e é sugestiva.

Começamos então a evolução detalhada da forma; é como um grande círculo traçado para baixo e para cima (Nota do tradutor: um círculo desenhado em forma vertical).

Há uma grande diferença entre o arco descendente, a metade do círculo, e o arco ascendente, a outra metade do círculo.

Em um caso, descendo, Íshvara imparte qualidades e atributos; na outra metade, subindo, constrói as qualidades e atributos em veículos.

Estas são as duas grandes diferenças entre os arcos descendente e ascendente.

Na descida, a matéria adquire qualidades; na ascendente, a matéria se forma em veículos, ou envoltórios, ou corpos, qualquer que seja o termo que prefiramos.

Segue um processo de especialização, até certo ponto.

Depois de um tempo, os materiais especializados se reúnem e se combinam em um veículo, uma unidade organizada, que serve como tabernáculo para o Si Mesmo.

Primeiro vem a diferenciação, e o primeiro passo para isso é impartir qualidades à matéria.

Permitam-me lembrar-lhes, como o tema é tão difícil, o que se entende por tattvas, as formas fundamentais da matéria, (134) e recordar mais uma vez aquele trecho do Vishnu Purâna onde se descreve sua evolução, e onde se diz que o tanmâtra do som produz A'kâsha; isto é, uma modificação da consciência de Íshvara produz a forma de matéria que chamamos de átomo de A'kâsha; esse átomo tem uma mera película da matéria mais sutil por seu envoltório, e a vida vibrante de Íshvara por força interior.

Então nos é dito que A'kâsha gera outro tanmâtra que é o tato, e que, envolvido, e penetrado por A'kâsha, produz a película de matéria mais densa que se chama Vâyu, sendo os dois tanmâtras e o A'kâsha a força geradora.

Isso continua através da totalidade dos cinco estágios, de modo que quando descemos ao plano físico, encontramos um átomo que mostra uma parede de matéria mais densa, dentro dela a vida envolvida e fora dela o campo magnético, formado pela matéria superior, os tanmâtras e seus envoltórios atômicos.

O átomo de Prithivî consiste, portanto, em seu próprio tanmâtra mais a matéria e a vida de Apas; a matéria e a vida de Agni; a matéria e a vida de Vâyu; a matéria e a vida de A'kâsha: de modo que no plano físico, o átomo físico é uma massa de cinco esferas interpenetrantes nas quais está presente como vida a totalidade da matéria e da vida dos mundos acima dele, o envoltório, ou parede, do átomo físico apenas mostra algumas (135) características do mundo físico, um fato inexprimivelmente importante para a evolução.

Pois cada uma dessas envolturas ou koshas —como as chama o estudioso do Vedânta, e não há palavra melhor—, cada uma delas está latente no e ao redor do átomo físico; e na evolução ascendente, cada uma delas se torna ativa e forte à medida que a evolução avança, vitalizando-se envoltura após envoltura.

Como poderiam esses koshas, ou envolturas nossas, aprender a responder às vibrações da vida em evolução, a menos que cada uma delas estivesse latentemente presente em nós, esperando para serem postas em atividade? A raiz dessa possibilidade encontra-se no próprio átomo, com todas as suas esferas interpenetrantes de vida e matéria, as envolturas que estão dentro e ao redor dele. Isso não é a única coisa que entendemos; à medida que essa concepção se esclarece, entendemos uma frase que muitas vezes nos havia desconcertado nos velhos tempos, de que "o espírito não tem sentido no plano da matéria". O que isso significa? O espírito, a própria essência da consciência, sem sentido e indefeso no plano da matéria! Por quê? Porque se se toma o espírito como espírito puro, não existem as envolturas intermediárias pelas quais as vibrações-matéria podem chegar até ele, e sem essas envolturas ele é incapaz de receber e responder às vibrações da matéria física.

Permanece inconsciente de sua própria existência, não havendo ponte pela qual elas possam passar e afetar essa vida.

Esta é realmente uma declaração perfeitamente simples de Madame Blavatsky, mas é uma que ouvi questionar uma e outra vez como algo completamente sem sentido, como se não transmitisse nenhuma ideia, porque como poderia a consciência ser inconsciente em qualquer região? Um pouco mais de conhecimento nos tornaria menos rápidos em nossa condenação de nossos superiores.

Essa ideia, pois, tomaremos para que nos ajude na primeira concepção de como pode ter lugar a evolução.

Agora vejamos como, no arco descendente do qual falamos, Íshvara está impartindo qualidades.

Segundo a natureza das vibrações que Ele envie e da matéria que lhes responda, será a qualidade impartida.

Quanto à ideia de que a diferença de vibrações implica uma diferença de manifestação, permitam-me apoiar-me na grande reputação de Sir William Crookes.

Emitiu, há dois ou três anos, não recordo a data exata, em 1896 creio, uma tabela de vibrações, limitada, é claro, ao mundo físico; uma tabela muito interessante, dando uma série de vibrações classificadas e assinalando quais eram conhecidas pela ciência, e deram origem ao que chamamos som, luz, eletricidade, etc., a diferença na frequência vibratória, e a sutileza da matéria na qual se estabeleceu a vibração, dando lugar a uma impressão particular, recebida e respondida por uma sensação em nós.(137)

Esse é o princípio que estou aplicando agora ao nosso sistema em seu conjunto.

Segundo a densidade da matéria será a rapidez das vibrações que essa matéria é capaz de expressar; Íshvara emite vibrações, e a matéria mânasica, diremos, é lançada em vibrações ou ondas correspondentes de uma frequência idêntica às do impulso de vida enviado por Ele, na medida em que é capaz de responder, estando estabelecido um limite por sua finura por um lado e por sua densidade por outro.

Seu limite de finura é o átomo do plano.

Seu limite de densidade é a agregação mais grosseira desses átomos no sólido mais denso do plano.

Se tomarmos o plano físico por um momento, temos sólido, líquido, gás, éter, éter mais fino, éter mais fino ainda e átomos.

Os cinco inferiores estão relacionados com os cinco sentidos do homem tal como estão desenvolvidos atualmente no plano físico.

Esses cinco correspondem aos órgãos dos sentidos e aos sentidos que atuam através deles, como se sugere nos nomes dos tanmâtras.

O Sólido está relacionado com o sentido do Olfato; Líquido ao sentido do Gosto; Fogo ao sentido da Visão; Ar ao sentido do Tato; e A’kâsha ao sentido do Som.

No entanto, esses não se expressam na ordem dada pelo cientista ocidental, mas não tenho tempo para entrar na razão da diferença e mostrar-lhes onde falha sua observação externa, porque não (138) é capaz de rastrear além dos limites de seus sentidos; em um trabalho mais sutil; ao tratar com nossos Vâyu e A’kâsha, ele os classifica juntos, e seu ar é nosso Agni.

Esses sentidos e sua evolução pertencem ao arco ascendente.

Descendo, Íshvara apenas dá o poder à matéria para responder a essas vibrações particulares, e essas vibrações estão conectadas no plano físico com as subdivisões que acabei de mencionar, as diferentes subdivisões da matéria: sólido, líquido, gasoso.

, e assim sucessivamente, correspondendo nos órgãos dos sentidos.

Descendo, começando no plano mental com a Inteligência, faltando as duas superiores da Existência e do Amor, envia vibrações para fazer responder a matéria do plano mental, e as vibrações com as quais essa matéria responde, ou seja, um certo intervalo de vibrações, denominam-se mentais ou inteligentes.

Você pode perguntar: Por quê? Precisamente pela mesma razão que nas tabelas de Sir William Crookes se dão nomes definidos às diferentes classes de vibrações que produzem som, luz, etc., dão-se nomes para expressar um certo limite de força vibratória; dentro de um conjunto de limites, as vibrações afetam o éter, produzem "luz" e o olho as recebe.

Da mesma forma, as vibrações que caem entre certos limites de frequência vibratória afetam a matéria do terceiro plano, (139) e quando são recebidas por um órgão adequado para focalizá-las em um centro, dando assim origem à autoconsciência, chamamos esse órgão de Mente, e a ação através dessa Mente, Inteligência.

O mero nome é tão arbitrário quanto qualquer outro nome, e os classificamos como mentais, do mesmo modo que certa gama de vibrações etéricas é classificada como luz, é recebida por um órgão equipado para focalizá-las que chamamos de olho, e a ação através desse olho é a visão.

Se vamos falar de modo algum, devemos ter nomes para descrever diferentes classes de fenômenos, e usamos a palavra mental ou inteligente para descrever o intervalo de vibrações que trabalham na classe particular de matéria da qual, na evolução ascendente, se constrói um órgão que chamamos de Mente.

Então, novamente, às vibrações que Ele envia à próxima forma de matéria mais grosseira, chamada Apas, ou astral, damos o nome Sensorial, constrói um órgão que chamamos de Mente.

Assim, de novo, às vibrações que Ele envia à próxima forma de matéria mais grosseira, chamada Apas, e à astral, damos o nome Sensorial.

Eles lhes transmitem a qualidade de responder ao prazer e à dor, e ao fazer essa varredura descendente, traz à existência renovada em cada plano os Devas, ou seres que têm como manifestação característica a qualidade de seu próprio plano; assim, os Devas do plano mental têm a qualidade da inteligência como sua principal peculiaridade, e os Devas do plano imediatamente inferior têm como principal qualidade o sentimento, ou o poder da sensação, e os do plano inferior têm como principal qualidade a ação, (140) a atividade.

Cada classe de Deva mostra especialmente a qualidade de seu plano, e na medida em que esses Devas atraem para seus próprios corpos a matéria do plano em que vivem, ajudam em sua evolução; porque a atraem, a usam e assim a desenvolvem, e a lançam de volta ao depósito geral, tal como o homem atrai a matéria física, a usa em seu corpo e a lança de volta ao mundo físico.

À medida que esse processo segue e segue através das eras, toda essa classe de matéria que chamamos de mental passa através dos corpos desses Devas, adquire o hábito de responder prontamente às vibrações da inteligência, e assim se prepara para construir o corpo mental do homem.

A matéria do plano astral é construída nos corpos dos Devas desse plano até que adquira esse hábito de responder cada vez mais definitivamente ao prazer e à dor, quando impactos são feitos sobre ela, e assim pode ser usada para a construção dos corpos sensoriais do mundo inferior.

Em cada plano, essa varredura (141) descendente põe em atividade essas classes de Devas, formando os elos intermediários que hão de trabalhar na construção das formas.

A essência da construção de formas por parte de um Deva é que ele as constrói com a matéria da qual é composto o seu próprio corpo.

Preparada por essa evolução anterior, desenvolvendo qualidades na varredura descendente da vida de Íshvara, a matéria é, no arco ascendente, reunida em formas definidas, os corpos da planta, do animal e do homem: assim se tornam veículos definidos, pelos quais a consciência mais alta pode se comunicar e receber vibrações do mundo mais baixo.

Agora, depois de termos feito essa varredura muito rápida para baixo, comecemos a subir rumo ao mais alto.

Agora se vê que cada tipo de matéria possui certas qualidades.

Cada átomo físico tem um número de envoltórios que o interpenetram e o rodeiam, o envoltório de matéria astral com seu poder de responder à sensação, o envoltório de matéria mental com seu poder de responder à inteligência, assim como os envoltórios, se assim se pode chamá-los, dos dois superiores, Amor e Existência, isso não será posto em atividade por muito, muito tempo.

Tudo está ali.

Íshvara começa agora a grande etapa de ação inquietante da qual falei, da construção de um centro, e é Seu primeiro trabalho construir formas físicas a partir deste material preparado, estando todos os Devas do plano físico prontos para atuar como Seus agentes, trabalhando sob Seu impulso e sob a direção do Senhor dos Devas do plano físico.

Todos esses inumeráveis agentes intermediários são necessários; pois inumeráveis serão as formas, e cada uma delas tem que ser construída.

(142) A construção dos corpos físicos começa com a formação dos minerais.

À medida que se forma um corpo mineral, talvez algum cristal, o cristal de um elemento ou um sal, um Deva do plano físico constrói uma forma definida.

Toma o material de seu próprio corpo e o material do plano físico que é de natureza semelhante a ele, e começa a moldar essas formas cristalinas.

Constrói-os sobre as linhas da energia vital enviada pelo próprio Íshvara, essas linhas que a Ciência chama de eixos do cristal, linhas "imaginárias"; "imaginárias"—sim; mas são da imaginação criativa de Íshvara, que é muito mais potente do que a matéria inferior que Ele constrói.

Essa matéria inferior segue a imaginação criativa do Senhor, e essas linhas imaginárias governam a formação desse cristal que o Deva constrói.

Tyndall não acreditava no funcionamento dos Devas, no entanto, quando estava dando uma conferência sobre cristais a uma audiência popular em Manchester, declarou que enquanto se imaginava a construção de um cristal, encontrou-se imaginando pequenos arquitetos em ação, colocando cada átomo com precisão exata, com toda a inteligência e habilidade de um arquiteto humano, empregadas na construção de um edifício.

Tyndall estava falando melhor do que sabia.

Sua imaginação estava respondendo à verdade mais agudamente do que ele acreditava.

(143) Porque é o privilégio do homem de gênio que ama a verdade como o fez Tyndall, que estava disposto a romper todas as cadeias do dogma em vez de ser um traidor à sua concepção da verdade: intuir inconscientemente a verdade que se busca, de modo que suas palavras deem um significado mais elevado do que ele sonhou.

Tyndall foi sábio ao recomendar o que chamou de voo científico da imaginação, porque esse poder da imaginação é algo sumamente útil.

Nunca corte as asas da sua imaginação quando estiver ocupado em seu trabalho científico; porque muitas vezes ela pode lhe dar vislumbres de verdades que, sem sua ajuda, você nunca encontraria.

Assim, os Devas trabalham e constroem cristais, e esses cristais têm algumas propriedades notáveis.

O professor Japp nos diz que alguns cristais emitem um feixe de luz polarizada de uma maneira particular; e declara que em algumas dessas formas há um poder que é diretivo e algo afim à inteligência do homem.

Verdadeiramente é afim à inteligência humana, na medida em que é o pai da inteligência humana, sendo esta última o filho que vai desenvolvendo as faculdades paternas.

Este edifício vai passando por etapas nas quais não devemos nos deter, por todo o mundo mineral, dando à matéria o poder de mudar de forma entre limites cada vez maiores sem perder a coesão.

Isto é o que se chama plasticidade, o poder de mudar de forma sem se desintegrar.

A matéria também ganha o que a ciência chama de elasticidade.

Agora, o que é a elasticidade? Não, como as pessoas costumam pensar, o mero poder da elongação, chamando de elástica uma coisa que pode ser esticada como um pedaço de borracha.

Um corpo elástico no sentido popular não é um corpo elástico do ponto de vista científico e, por mais estranho que pareça, o vidro é muito mais elástico que a borracha.

No entanto, o vidro não se estica e é quebradiço.

A definição adequada de elasticidade é o poder (144) de recuperar a forma original após a distorção, e a matéria adquire gradualmente esse poder.

À medida que se desenvolve a vida, o equilíbrio dos compostos que compõem a forma torna-se cada vez mais instável, enquanto ao mesmo tempo aumenta a coesão geral da forma; quando chegamos às formas superiores, como o corpo do homem, encontramos o poder de manter a posição central maior do que a que encontramos em qualquer outra forma, junto com uma maior plasticidade e elasticidade; para que um homem possa se adaptar ao frio das regiões polares, e ao calor dos trópicos e da zona equatorial, sem perder seu corpo, de uma maneira que nenhum animal inferior pode igualar, ou seja, ele tem o poder de adaptar seu corpo físico às condições circundantes em maior medida do que qualquer outra forma.

Voltando ao reino mineral (145) que deixamos, passemos à próxima etapa; Íshvara agora pode expandir e modificar Sua matéria um pouco mais do que originalmente era possível sem rompê-la.

Ele começa a moldar o reino vegetal, e ali também estabelece eixos de crescimento, tão "imaginários" e tão reais em sua força controladora quanto no cristal, embora nem sempre sejam tão fáceis de rastrear, no entanto, estão ali.

Toda a matéria vegetal é construída de acordo com esses eixos, e a classificação natural das plantas é determinada em grande parte pelas relações numéricas das partes; assim, a lei do número dá forma ao formado.

À medida que a matéria se torna mais plástica e cede mais facilmente à vida que a habita, os membros superiores desse reino começam a mostrar o amanhecer da sensação.

Isso se deve ao começo da vivificação da próxima envoltura acima da física, composta do que chamamos de matéria astral, a que vai fazer parte da manomaya kosha do Vedântin.

Vemos nisso uma suscetibilidade crescente, um poder sensorial crescente, muito leve no mundo vegetal, mas ainda presente, e muito mais desenvolvido onde o vegetal tem uma longa experiência de vida separada.

Tomemos, por exemplo, uma árvore que perdurou durante séculos, e permitam-me rastrear as etapas em que se encontra a sensação do amanhecer, e até mesmo um amanhecer, embora dificilmente ouse usar a palavra, um amanhecer de qualidade mental (146). Essa vida na árvore responde às vibrações recebidas do exterior, do frio e do calor, do vento e da chuva, do sol e da tempestade, e à medida que o envoltório físico se constrói e se desenvolve pela ação dos Devas que atuam sobre ele, o envoltório etérico, a matéria que contém é continuamente posta em vibração pelas mudanças de temperatura, luz e condições elétricas.

As vibrações dos éteres que entram no corpo físico passam ao subplano atômico, e como os átomos do plano físico têm suas espirais feitas da matéria mais densa do plano de Ápas, ou matéria astral, um leve tremor se produz na matéria mais grosseira do plano astral, e isso provoca um pequeno movimento na árvore, ao qual a vida interior responde mediante a sensação, um sentimento maciço e geral de prazer ou dor.

Você nunca caminhou por uma floresta e sentiu como se toda a natureza estivesse desfrutando do sol? Essa sensação de prazer se manifesta ainda mais quando a estação quente chega ao fim, e as primeiras chuvas caem sobre o solo sedento, e a vegetação quase murcha lança um consciente estremecimento de alegria e vida renovada.

As próprias árvores e arbustos se regozijam quando a chuva cai sobre eles com sua mensagem de vida e de esperança.

Em tais momentos reconhecemos que o mundo vegetal é sensível (147), embora a sensação seja generalizada, aquilo que se chama de caráter maciço.

Perdoa-me se por um momento me desvio aqui, para dizer que este fato é uma das razões pelas quais temos um dever para com o mundo vegetal, não sem necessidade de causar sensações de sofrimento nascente.

Vivemos descuidadamente demais, irmãos meus, neste mundo que é todo-vivo, onde não há átomo que esteja morto, e isso é especialmente triste aqui na Índia, onde outrora houve uma reverência tão forte pela vida.

Isso está agora, infelizmente, começando a desaparecer.

Estás esquecendo que toda vida é Íshvara, que de acordo com a etapa de Sua auto-evolução inferior é o poder de resposta que se dá à forma.

Nos velhos tempos, lembro-me de como, quando o homem tomava seu alimento, recebia-o com uma saudação cheia de graça, porque estava sacrificando sua vida para construir, através desse sacrifício, a sua própria.

Embora não possuísse os poderes superiores de sensação como os encontramos no animal, mas apenas os poderes menores de sensação do mundo vegetal, ainda assim, mesmo então, recebia-o com reverência, como um sacrifício que lhe era feito, e o tomava com gratidão e com amor; aquela vida inferior estava se rendendo a ele para sua edificação.

Mas hoje, tão perdida está essa gentil graça em muitos de nossos hindus, que não apenas desprezam as vidas sacrificadas do reino vegetal, (148) mas também as das formas muito mais sensíveis que Íshvara desenvolveu no reino animal de Seu mundo.

Encontramos homens que vestem a forma exterior do hindu, que têm sua cor, sua forma, seu rosto, que se vangloriam de sua descendência desde a antiguidade, que se consideram, portanto, em pensamento, acima das nações ocidentais, esquecendo a vida do Si mesmo nesta criação sensível, e alimentando seus corpos com os corpos de seus irmãos inferiores, sem demonstrar qualquer senso do sacrifício feito, ou sentindo sequer uma gratidão passageira pela vida que se dá por eles.

Voltemos ao molde de nossas formas.

Íshvara, meditando sobre as formas em evolução, continua Sua paciente obra, paciente, para que a forma nunca se rompa por um esforço excessivo, mas que se desenvolva lentamente até se tornar um veículo da vida que a anima.

Em cada forma Ele vive, evoluindo-a, mas Ele limita com paciência ilimitada Sua manifestação de vida às pobres capacidades da forma, para que ela possa crescer e não ser destruída.

Lembram-se de uma velha história dos dias antigos, na qual a maioria de vocês se envergonharia de reconhecer que acredita, porque não são graduados e homens de conhecimento ocidental? Embora descendentes da época antiga, não tendes nada a ver com isso, mas eu, que fui educada no Ocidente, não sinto nenhuma vergonha em reconhecer (149) minha crença nas coisas estranhas que nos chegam dos tempos em que a verdade era menos velada do que agora.

Então, atrevo-me a lembrar-vos da história, ainda que possais pensar que não passa de uma fábula ou lenda.

Havia um menino que acreditava em Vishnu ou Hari, em quem seu pai não acreditava, chamava-se Prahlâda; e esse menino passou por muitas provas, mas em toda a sua fé no Supremo foi defendido; por fim, seu pai, zombando, disse, voltando-se para uma coluna em seu aposento: "Dizes-me que Hari está em toda parte: está Ele nessa coluna?" "Oh, Hari, Hari!" gritou o menino, e do pilar em forma de Leão irrompeu um avatâra de Vishnu, e o pilar se fez em pedaços.

Verdadeiramente Ele está em toda parte, em cada partícula de matéria; não há uma única partícula da qual Ele não possa surgir com todo o poder de Sua Divindade, com toda a majestade de Sua Deidade.

Mas Ele não o fará, porque se o fizesse, a forma não poderia suportar essa revelação, e se estilhaçaria em pedaços quando Deus aparecesse.

Uma verdade profunda, ainda que se considere a história como uma alegoria, uma verdade que nos ensina o que significa a evolução.

Assim, Íshvara trabalhou era após era e éon após éon, com essa maravilhosa paciência da qual falei, até que a matéria se tornou suficientemente plástica para construí-la na forma na qual Sua vida mais elevada havia de começar seu desenvolvimento, a forma de homem; construindo (150) essa forma, começa também a fortalecer muito o centro que a forma deve proteger por um tempo.

Permitam-me dizer de passagem uma coisa que omiti: que sempre que uma forma chegou ao seu ponto mais alto possível, seu limite de expansão, Ele a rompe, para que, numa nova forma melhor adaptada, a vida anímica possa continuar crescendo; porque Ele sabe quando quebrantar assim como quando suster; sabe quando destruir e quando preservar; e no momento em que se alcançou o limite de uma forma, e sua matéria não pode ceder mais, Ele rompe a forma em dois, para que seus materiais possam se recombinar, sob o impulso da vida, num organismo mais plástico, e que a vida possa assim lograr uma maior evolução, animando uma forma superior mais adequada para a expressão de seus crescentes poderes.

A essa ruptura da forma chamamos morte, e a tememos e nos encolhemos, e se as pessoas nos falam da morte, no arrebato de nossa vida, ela chega como uma sacudida e uma comoção.

Mas, como te disse no início, podes ver muito claramente que a morte é esse aspecto benéfico de Íshvara, que rompe uma forma que se tornou uma prisão, para dar à vida uma nova forma na qual ela possa continuar crescendo; rompe a forma rígida quando ela já não pode mais se desenvolver, e dá à vida a forma plástica de um bebê, que pode ser moldada mais facilmente pelas forças modeladoras da vida dentro dele, rendendo-se a cada impulso vindo de dentro. Parece então que, quando vemos as coisas corretamente, deveríamos saudar a morte como um nascimento, mais do que como uma morte.

Porque visto do lado da vida, cada morte é um nascimento nas possibilidades superiores de uma nova forma que se adaptará à vida em crescimento.

Quando o homem inicia sua longa peregrinação, uma forma está pronta para ser animada, preparada para receber e responder aos impulsos que lhe chegam dos planos físico, astral e, em pequena medida, mental.

Seus átomos físicos estão consideravelmente evoluídos, o invólucro sensorial está trabalhando ativamente e há um invólucro mental inferior muito imperfeito; estes foram construídos através da evolução do reino animal.

Não caiam no erro do pensamento ocidental, e digam que o homem descende do animal; isso não é verdade.

É apenas um fragmento da verdade vista pela metade e, portanto, distorcida.

O que é verdadeiro é isto: que a matéria de seus veículos inferiores foi preparada evoluindo através das etapas dos reinos elemental, mineral, vegetal e animal, a fim de que pudesse ser edificada na forma do homem; que em kalpas anteriores se haviam desenvolvido formas que poderiam ser descritas com justiça como metade macaco, metade humano, que nunca foram ocupadas pelo Eu tríplice, e que portanto pertenciam ao reino animal, não ao humano; que no presente ciclo a forma humana evoluiu, como evolui um feto, passando rapidamente através das etapas inferiores no caminho rumo ao humano, como na vida pré-natal, e portanto tem estampado nela as etapas pelas quais passou.

Tenho repassado, de maneira grosseira e rápida, as etapas através das quais passou no passado a matéria da qual o corpo é composto, e verão que a verdadeira teoria da evolução é diferente da visão um tanto grosseira de que há uma evolução regular, uma sucessão de nascimentos do animal ao homem.

A matéria tornou-se plástica no animal, mas o homem, em sua forma, é o resultado de um trabalho superior; o germe de sua vida nunca pode se converter em um animal, mas somente no humano, porque nele foi incorporado mais, e esse germe deve se desenvolver ao longo de uma linha que é a do crescimento humano direto.

Lembrando que, para prevenir um possível mal-entendido, dirigimo-nos ao centro humano que já está definitivamente formado.

Falamos de sua forma envolvente como o corpo causal, ou Karana Sharîra, a forma pela qual o Si mesmo está limitado; o Karana Sharîra não é o Si mesmo, lembre-se, mas o veículo contentor do tríplice Si mesmo, e o órgão de um aspecto desse Si mesmo, o aspecto do conhecimento, manifestado como inteligência.

Essa envoltura é importante, sendo relativamente de caráter permanente, e continua de nascimento em nascimento; a morte não pode tocá-la, o nascimento não pode modificá-la; é a casa do tesouro ou receptáculo de todas as qualidades adquiridas pela experiência através da evolução humana, e perpassa todo o ciclo das reencarnações; é a característica humana especial.

A forma começa a se adaptar cada vez mais à vida, e aqui surge uma dificuldade crescente.

A característica da vida do homem é a vida do intelecto; esta é a parte especificamente humana da evolução; mas a vida da sensação é muito mais vívida e tumultuosa no início, e as primeiras etapas da forma estão adaptadas para responder a esses impulsos.

Você pode perguntar: por que não dar ao homem imediatamente um corpo mental somente, no qual ele possa desenvolver sua evolução, por que ele deve lutar através da evolução desse corpo de sensação? Porque, se ele perder essa etapa, não poderá recompor os laços necessários para a continuidade de sua consciência.

Em um momento posterior, o homem perfeito é consciente em todos os planos, do Nirvâna para baixo até o físico, do físico para cima até o Nirvâna.

Em cada plano, em uma continuidade ininterrupta de consciência, o Jîvanmukta vive e trabalha.

Nenhum elo falta.

Se, então, o homem não estabelece, na construção de seu corpo de sensação, certos centros ou, como são chamados, chakras, essa atração para os centros que é obra do arco ascendente, assim como dá qualidades que é obra do arco descendente—se ele não atrai os poderes da sensação para centros definidos na envoltura de seu corpo astral, não terá os enlaces que necessita para receber impactos do plano astral, e através dos quais pode enviar estremecimentos de energia consciente para impressioná-la, governá-la e guiá-la.

Por isso há tanto atraso na condição selvagem, onde a vida da sensação é suprema; esses chakras astrais estão sendo construídos como centros dos sentidos, e são construídos firmes e fortes; os órgãos externos, o olho, o ouvido, o nariz, a língua, a pele, são simplesmente os órgãos necessários no corpo físico para a expressão da consciência através desses chakras.

Se fizermos, por um momento, um rápido exame da evolução das formas, encontraremos que a construção de órgãos segue o exercício das funções vitais; nas formas mais antigas não há órgãos, mas as funções da vida estão presentes e ativas; a criatura respira e assimila, continua a circulação; mas não há órgãos para a digestão, nem órgãos para respirar, nem órgãos para a circulação; todo o corpo faz tudo.

Mas à medida que a evolução avança e se formam órgãos definidos no corpo físico, no sistema nervoso, e mais tarde, no corpo astral, formam-se os chakras ou centros astrais de sensação; órgãos definidos.

Sempre o órgão vem depois da função, e através do órgão a função se expressa mais e mais perfeitamente.

Esse é um princípio fundamental.

E não esqueça que nisso você está no que se acredita ser o terreno mais seguro da ciência ocidental.

Você não encontra um órgão que apareça antes do desenvolvimento de sua função.

Sempre você encontra primeiro o impulso de vida, e depois a moldagem da matéria em uma forma que permite que esse impulso se expresse mais perfeitamente.

Se rastrearmos a evolução desde a ameba para cima, encontramos que a diferenciação e a especialização se tornam mais marcadas ao longo de todo o caminho; no entanto, o próprio homem dá a volta, e com o mesmo cérebro que se formou sob as vibrações da inteligência, inverte todo o processo e afirma que o pensamento é produzido pelo cérebro; mas todo órgão está formado como órgão de uma função, é produzido pela vida, e não é seu criador.

Este processo continua até que se formam os órgãos necessários e o sistema nervoso se conecta aos chakras no corpo astral, principalmente através do que se chama o sistema simpático.

Há certas células nervosas de um tipo peculiar nesse sistema, das quais a ciência moderna não diz muito, além de lhes dar as formas e os conteúdos, e estes são os vínculos entre a consciência no corpo físico e no corpo sensorial.

Depois vêm os chakras já mencionados como os centros para o trabalho da consciência no corpo astral.

Um processo similar tem lugar no corpo mental sob a ação dos impulsos do pensamento, e ali também temos um corpo organizado capaz de responder a diferentes tipos de pensamento, e assim servir à consciência como seu órgão de expressão no mundo mental.

À medida que crescemos mentalmente, construímos nossos órgãos para a consciência.

Chegando a este edifício da forma na prática, aprendemos que organizamos o corpo da sensação para fins mais elevados, controlando o impulso da vida à medida que corre para o objeto dos sentidos.

Esses objetos se afastam gradualmente do abstêmio morador do corpo, está escrito, e quando o mundo inferior deixa de atrair, o mundo superior começa a usar a forma para fins mais nobres.

Se desejamos aumentar o poder mental, devemos praticar o pensamento constante e controlar os vagabundeios da inteligência sobre o mundo fenomênico.

De fato, muita gente nunca pensa realmente em absoluto; o que chamam de seus pensamentos não são mais do que os reflexos dos pensamentos de outras pessoas aos quais sua consciência responde; suas mentes são espelhos, não organismos produtivos; a mente da maioria dos homens, temo, são espelhos que refletem objetos que estão diante deles, e ao contemplar esses reflexos um homem diz a si mesmo: "Olha! Como estou pensando!" quando está apenas repetindo os pensamentos dos outros.

Agora bem, não devemos ser meros espelhos; quando os objetos do mundo exterior dão lugar a imagens, a mente deve trabalhar sobre eles, analisá-los, reorganizá-los, combiná-los; pensar é o trabalho da própria mente sobre as imagens mentais fornecidas através da sensação, o trabalho sobre os materiais que foram gradualmente reunidos pela experiência.

Tão logo poderias chamar um monte de tijolos soltos que vês no recinto de uma casa, um edifício, como chamar ao reflexo dos pensamentos de outras pessoas, o teu pensamento.

Esse é apenas o material para o pensamento.

Pensar é o trabalho do arquiteto, do construtor que ergue esses tijolos em um edifício definido, e até que tenhamos construído pensamentos em nossas mentes, não temos o direito de arrogar a nós o nome de pensadores.

Pratique então este pensamento independente; é difícil; não saberás quão duro é até que o experimentes.

Nunca deixes passar um dia sem ler algo que te dê material para pensar.

Não importa se o livro não é religioso; se é apenas intelectual, isso te tornará mais forte no intelecto.

Mesmo deixando de lado a espiritualidade com suas possibilidades mais nobres, tomai (158) algum grande livro digno de ser refletido, não um jornal, não um romance sensacionalista, não um livro infantil, mas um livro, um livro original, sobre um tema real; o que Charles Lamb chamou de um livro.

Leia, mas não leia muito, talvez não mais de uma dúzia ou vinte linhas; Pense nestas linhas uma e outra vez durante pelo menos três vezes o tempo que levou para lê-las lentamente.

Faça isso todos os dias com regularidade e não o perca.

Encontras tempo para o teu jantar; por que, se podes encontrar tempo para alimentar teu corpo e falar, não podes encontrar tempo para alimentar tua mente? Então tua mente cresceria.

Se fizeres isso como um experimento, digamos apenas durante três meses, nunca percas um dia, porque se saltares um dia, retrocederás e perderás o valor da ação automática de tua mente; faze-o durante três meses como um experimento, como um homem científico faz um experimento, e assim treinai-vos durante três meses no poder da atenção e do pensamento, e ao final dos três meses, vos surpreendereis ao ver quanto cresceram esses poderes.

Quando te tiveres submetido a este experimento, então não quererás que um conferencista te fale sobre o valor de tal autodisciplina, porque tu mesmo terás provado que ela é boa.

Tome uma faculdade após outra para treinar; treine sua faculdade de raciocínio, sua memória, seu poder de comparação e contraste.

Tome uma faculdade, assim como alguém toma um estudo no qual está trabalhando, e trabalhe nela até que você seja um artista nessa faculdade em particular.

É assim que a forma é construída, quando o Eu humano começa a cooperar com o trabalho de Íshvara, quando o centro começa a assumir o controle de seus veículos.

Racionaliza seu funcionamento, e o constrói e modifica passo a passo.

Quando isso foi feito durante muitas vidas, então vem a vida do Yoga; então se pode ensinar ao homem como fazer um progresso mais rápido e como vivificar as camadas internas e mais sutis de seu ser mediante certas práticas, que lhe serão ensinadas no momento em que estiver pronto, mas que nunca lhe serão ensinadas até que esteja realmente pronto, ainda que percorra o mundo em busca de um Gurú, ou viva a vida de um asceta na caverna ou na selva.

Isso não é suficiente enquanto seu desejo não for conquistado, enquanto sua mente permanecer inquieta.

Quando os sentidos estiverem dominados, quando a mente estiver controlada, e não antes, mas então, tão certamente quanto antes não havia a vinda, aparecerá um Gurú que tomará esse homem pela mão e o conduzirá pelo caminho que é estreito como o fio de uma navalha, que só pode ser trilhado pelos sentidos controlados e pelos firmes na mente, porque a queda para um lado ou para o outro significa atraso para muitos nascimentos vindouros.

Então se desenvolve aquele aspecto de Bem-aventurança que se mostra externamente (160) como amor; um débil reflexo dessa bem-aventurança é sentido em muitas etapas da meditação, e a alegria nasce dentro de ti, brota dentro de ti, te envolve dobra por dobra, até que em transe yóguico alcanças o verdadeiro Ananda, que é a essência da beleza, e te faz estremecer sob suas sutis vibrações de inefável deleite.

E mais tarde, ainda, em uma etapa à qual podeis chegar, quando tudo estiver purificado através de uma longa evolução, terá ocorrido a ascensão ao mais alto, onde a matéria mais sutil se torna o veículo desse centro desenvolvido, agora já não uma circunferência que restringe e é necessária, mas um veículo obediente que servirá quando for necessário e desaparecerá quando não o for.

Como está escrito que no A’kâsha há toda possibilidade de forma, assim a vida que alcançou a Auto-existência é um ser que se veste a si mesmo em qualquer forma, reunindo o A’kâsha ao seu redor.

Assim, pode desenvolver veículo após veículo até que toda a série humana esteja construída para seu uso, mas nenhum deles é prisão por limitação; então dizemos que o homem é um Jîvanmukta, é livre, e toda a matéria se tornou Seu servo, para usá-la quando precisar, para descartá-la quando não precisar; cada região do mundo é Sua para usá-la, nenhuma região do mundo é Sua para prendê-Lo; Ele está liberado, e como o Ser liberado Ele pode, se assim desejar, continuar trabalhando para Seus irmãos os homens, permanecendo, como Shrî Shankarâchârya (161) nos ensinou, até o fim de Sua era, para elevar mais rapidamente a humanidade em sua ascensão ascendente.

Assim se formam Aqueles que são os colaboradores de Íshvara na ajuda à humanidade, que, tendo passado por todo o sofrimento, lançam tudo o que ganharam aos pés do Senhor, que se voltam para o mundo, para nunca mais serem por ele atados, mas ainda assim respondendo à compaixão que é a própria vida do Próprio Íshvara.

Enquanto Íshvara desejar permanecer na manifestação, também permanecerá Aquele cuja vontade é uma com a de Íshvara.

Ele não tem nada a ganhar, nada a aprender, nada a tomar que qualquer mundo possa lhe dar; mas Ele está ao lado de Seu Senhor como um órgão da expressão da vida mais elevada, que já não existe para nada do que Ele toma, mas como o canal da vida de Deus.

Esse é o prêmio de nossa vocação, essa é a meta na qual estão fixados nossos corações.